quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Macaco Hidráulico II

Porque raio é que falamos? Dizem vocês, incautos leitores, que é para comunicar. Mas sintaticamente eu não perguntei "para que", mas sim "porque". É das coisas mais antropocêntricas que temos, isto de trocar a causa pelo efeito. Andamos de pé para ver sobre as ervas altas da savana, senão éramos comidos? Não. Andamos de pé porque a selecção natural foi favorecendo aqueles que conseguiam transportar uma grande quantidade de alimentos, e para isso, precisámos de começar a usar os braços. Isto porque, no seguimento do que eu já tinha dito, não nos tornámos bípedes na savana. Já o éramos antes de cairmos lá por um triste acaso do destino.

A fala é algo que temos por adquirido, mas que demorou bastante tempo a evoluir. Marc Verhaegen é um investigador da evolução da linguagem e é da opinião que começámos a falar muito por culpa do nosso sistema respiratório ter evoluído diferencialmente dos restantes símios. Isto porque passámos pela tal fase aquática da nossa evolução. A preparação para o mergulho implica, obrigatoriamente, o fecho completo das vias respiratórias superiores. Algo que os chimpanzés não conseguem fazer, e por isso têm medo da água, pois afogam-se facilmente. O controlo voluntário da abertura e fecho dessas vias é algo que já existe nos recém-nascidos humanos. Daí ser tão normal ver um bebé a nadar, completamente à vontade.

Quando vivíamos perto de grandes massas de água e tivemos que nos aventurar na pesca e na recolha de moluscos e crustáceos, tivemos que ir cada vez mais longe. Aqueles que conseguiam um melhor fecho das vias respiratórias, foram favorecidos pela selecção natural e passaram os seus genes para a geração seguinte. Se consegues mais alimentos sobrevives mais tempo e tens maior probabilidade de te reproduzires. Isto é a evolução explicada de uma forma simples.

A questão é que o controlo voluntário das vias respiratórias trouxe algo de útil, que foi a capacidade de articular sons. Junta-se o útil ao agradável, agita-se bem, e temos um ser com capacidades vitais de comunicação, que nos vieram a ser extremamente úteis na nossa organização social, como por exemplo na caça cooperativa que viemos a desenvolver na savana. Aqui, nós quando lá aterrámos, já éramos um animal com capacidades de adaptação acima da média e não demorou muito até crescermos e nos tornarmos cosmopolitas.