quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O Desenvolvimento - parte I


Entre muitos erros cometidos por sucessivos governos ao longo de muitos anos de Democracia, creio que o mais grave (e, muitas vezes, o mais subvalorizado), é a forma como o “desenvolvimento” tem sido entendido. Trata-se de um problema de base, paradigmático até, ao nível de todos e de cada um dos valores pelos quais se deve reger uma sociedade.

Fazendo uma reflexão histórica, penso que nunca chegámos a sedimentar uma verdadeira ideia de “desenvolvimento”, um plano contínuo, holístico e adaptativo de como queríamos que a sociedade se comportasse a longo prazo. Em poucos anos, o “desenvolvimento” assente em bases meramente ideológicas e, já à altura, completamente anacrónicas do pós-25 de Abril, do PREC, do “socialismo” constitucionalista, deu lugar a um “desenvolvimento” apenas assente no capital, no valor figurativo do dinheiro e na abstracção dos “mercados” como solução para todos os problemas. Ou seja, nunca houve verdadeiro desenvolvimento, mas apenas reformas sucessivas para resolver problemas detectados muito tardiamente. Reformas essas que, nos dias que correm, atingiram estatuto de “refundações”, perdendo de vez qualquer vestígio de fio condutor que eventualmente as unisse ou legitimasse. Refundar significa fundar de novo, ou seja, cortar com o estabelecido e iniciar um caminho próprio, sem o peso – e a lição! – do passado e sem um verdadeiro movimento legitimado pela vontade  e necessidade das comunidades.

Ora, isto até podia ser positivo, se houvesse nessa refundação um plano de desenvolvimento que fosse fundamentado e não fosse feito à custa dos mesmos de sempre: os desfavorecidos. Estes já não são apenas o “povo” do velho paradigma social, já não são o “proletariado” do leninismo nem os “pobrezinhos” do fascismo. São também, e principalmente, os que querem trabalhar e não podem, os que querem investir e não conseguem, os que estudaram e não são necessários, os que se têm que agarrar à dignidade porque já foram perdendo todo o resto.

Que ninguém se iluda: não nos vamos conseguir desenvolver enquanto os nossos governantes não souberem o que é “desenvolvimento” e – mais importante! – enquanto os eleitores não entenderem e não levarem à prática esse conceito, exigindo-o fundamentadamente.

Não que o conceito em si seja complexo de entender por parte daqueles que têm constituído poder executivo, legislativo ou judicial, embora creia que, em muitos casos, os profissionais da política que nos têm parasitado, em virtude da sua muito exígua experiência do mundo real, não estejam equipados com os óculos conceptuais que lhes permitam entender o desenvolvimento no seu sentido lato.

É razoável admitir também que muitos políticos, tendo uma formação académica muito pouco diversificada e generalizada transversalmente à classe – Direito ou Economia, Economia ou Direito (… e um ou outro Engenheiro…) - como se apenas estas duas áreas do saber fossem passaporte para a tal carreira política. E se há uns que conseguem ter abrangência , interesse e sentido crítico suficientes para não descurarem o que não cabe nas suas áreas académicas respectivas, outros há – e creio serem a maioria (no sentido estatístico e no democrático) – que foram doutrinados pelas visões algo dogmáticas que o mundo académico tinha (e em alguns casos ainda tem), sobre os paradigmas de Economia e Direito. Como tal, é muito fácil encontrar gente para a qual a Dura lex sed lex romana é o melhor modelo judicial dum estado de direito, ou que o capitalismo keynesiano há-de resolver todos os males do mundo.

Em muitos casos, nessas academias, há um perpetuar de velhas ideias por parte de docentes avulso (docentes e não investigadores, leia-se!), que saltam constantemente entre as cátedras e as cadeiras dos poderes, indo e vindo do mundo político, financeiro e até sindical, órgãos decisores onde aplicam os mesmos dogmas que apenas ensinam (não investigam nem validam!), e onde obtêm resultados autossatisfatórios (não avaliam!). Isto não é académico, é pastoral!

Mesmo sem falar das academias, que – coitadas – têm as costas mais largas que o peito, há noutras barricadas outros exemplos acabados de dogmatismo, desde estalinistas enrustidos a trotskistas confusos, passando por socialistas apenas e só de nome e punho erguido e acabando em velhos (e novos!) do Restelo, saudosistas até à medula. O grande problema, mais uma vez, é o da reivindicação ideológica da realidade a partir de modelos socioeconómicos que são apenas teóricos – como o marxismo-leninismo – ou completamente descontextualizados – o estado de bem-estar social nórdico e a tentativa da sua colagem através de uma ou outra medida avulsa que não considera as diferenças (e que diferenças!) entre as realidades portuguesa e escandinava.

Em todos os casos, tratam-se de ideologias anacrónicas, como completamente anacrónico é, de resto, o capitalismo, principalmente nesta forma neo-liberal desregulada, em que um Estado ligado às máquinas deixa correr o marfim nos “mercados” para se agarrar à esperança da resolução das dívidas.

Não é de estranhar, portanto, que existam cúmulos de hipocrisia e cinismo por parte de políticos, como por exemplo o típico do economista comparando as contas do Estado às de uma família ou pequeno negócio, desconhecendo que o meu merceeiro, para competir com as grandes superfícies, vende as suas maçãs a menos um cêntimo que estas e, com o IVA e o IRC como estão, para poder sustentar a sua família, ter filhos a estudar, pagar a renda, água, luz, telefone, gás, gasóleo para trabalhar, despesas da pequena loja, não lhe sobra quase nada para aderir às novas regras de facturação. Ou o dono do café ali ao lado, que trabalha 16 horas por dia, pois com o IVA a 23%, não se pode dar ao “luxo” de contratar ajuda. Ambos percebem muito mais de economia que aqueles políticos e banqueiros. Ambos aguentam, aguentam… já o dono da pequena churrasqueira das redondezas não aguentou. Suicidou-se um dia destes.

O mundo real, que necessita de desenvolvimento, não se coaduna com a perspectiva estreita daqueles que não sabem o que é a política nem a democracia e que, no entanto, nos têm governado nas últimas décadas. Daqueles que aprenderam tudo o que julgam que precisam saber nas juventudes partidárias e nas tais academias que não investigam, não produzem, não validam nem avaliam. Daqueles produtos acabados do carreirismo que mancham o nome da política e infectam a democracia.

E eis-nos chegados a uma situação em que (aquele que deveria ser) o eleitor (mas não é porque no dia das eleições não vota), repete até à exaustão os soundbytes que apanha no ar, nas conversas de café, na comunicação social. “Que a política e os políticos isto e aquilo!” Como se política e políticos fossem a mesma coisa…

Ali ao lado, outro eleitor de facto não votou neste governo. Ninguém votou neste governo. A avaliar pelas pessoas que não votaram neste governo, até parece fraude eleitoral.

Outro eleitor ainda tem a digníssima coragem de assumir o voto neste tal governo, mas uma coragem ainda maior de se afirmar envergonhado. Porventura, dedicou o tempo que tinha para ler os programas eleitorais a ver a “Casa dos Segredos”. Mesmo que tivesse lido os programas, iria dar quase ao mesmo. A troika serve de desculpa para tudo, inclusivamente para um incumprimento de promessas eleitorais sem paralelo.

“Pois, mas é que os outros, os comunas e os janados, só sabem dizer mal, nunca fazem nenhuma proposta…”. E assim é, de facto. O programa do Goucha acaba, e está o eleitor distraído quando os noticiários abrem. Se não houver uma boa discussãozinha parlamentar, com um belo “tanso é a tua tia, pá”, um ministro a fazer corninhos, uma deputada a gritar qualquer coisa lá atrás, os coleguinhas a dizer “muito beeem, muito beeeem” nos momentos mais polémicos… se não houver picante, o tipo muda de canal. Que paga um dinheirão para ter 137 canais cheios de interesse!

Nisto a comunicação social não está isenta de culpas. Por mais que um órgão informativo se diga independente, nunca o é de facto. No limite, tem que pagar as despesas da sua actividade e os salários (ou avenças) aos “colaboradores” e administradores. Na generalidade está intimamente ligado a um qualquer grupo económico e tem que ter uma certa permeabilidade aos seus interesses. Na essência, tem que vender. Vender jornais, revistas, publicidade. Vender shares, minutos, numa guerra concorrencial que nunca mais acaba, onde um público pouco exigente não se satisfaz com notícias relevantes no contexto sociopolítico. Estas não vendem. As notícias “boas” é que vendem: o futebol, o crime, a polémica, o circo da actualidade plasmado em todas as vias possíveis e imaginárias, servido de preferência com sensacionalismo para colar mentes incautas ao ecrã. Vendem, vendem, vendem. Pouco informam, pouco cultivam.
 

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