sexta-feira, 3 de julho de 2009

Macaco Hidráulico I

Sir Alistar Hardy lia descansadamente um livro quando tropeçou numa estranha constatação: porque é que os humanos possuem uma camada de gordura mais semelhante aos mamíferos aquáticos do que aos restantes símios?

Se somos filogeneticamente mais próximos (forma dos Biólogos dizerem que temos mais genes em comum devido a relações evolutivas de proximidade), dos outros símios do que da foca, da morsa ou do golfinho, não era de esperar termos tantas características em comum. Que não se ficam, aliás, pela banha. Há a questão da ausência de pelo exuberante, por exemplo.

Hardy ficou fascinado por estas questões e começou a investigar um conjunto de características, tendo chegado, em 1930, a uma hipótese: grupos de nossos ancestrais, numa dada altura da nossa evolução, terão sido forçados, por competição, a descer das árvores e a procurar alimento em zonas de águas baixas, com abundância de alimentos como peixes, crustáceos e moluscos e sem competição de outros mamíferos. Sir Hardy, precavendo-se contra a inaceitação desta hipótese, esperou 30 anos até a publicar, tendo reunido bastante mais informações nesse período de tempo. Mesmo assim, a sua teoria foi completamente desvalorizada e ridicularizada pela restante comunidade científica. Uns anos depois, em 1963, Desmond Morris repesca esta teoria e desenvolve-a na sua revolucionária obra "The Naked Ape".

A grande polémica desta hipótese, conhecida como Teoria do Macaco Aquático (AAC - Aquatic Ape Theory), reside no facto de ir contra as perspectivas clássicas da evolução humana, que apontam uma passagem mais directa das árvores para a savana, o que explica o bipedismo e a posição erecta, bem como a caça cooperativa, mas falha em explicar as características morfológicas tão distintas do humano. Claro que os antropólogos clássicos, com anos e anos de pesquisa e publicações dedicadas à hominização naqueles moldes, nunca podiam aceitar uma hipótese que deitava por terra todo o paradigma que eles tinham afirmado.

Mas a ciência faz-se essencialmente de factos, e a evolução tem a paleontologia por trás. -Então é fácil: peguem-se nos fósseis - dizem vocês! Seria fácil, se os houvesse! Há um período desde há 7 até 4 Milhões de anos que não tem grande registo geológico na área em que a hominização teria ocorrido, ou seja, na região hoje conhecida como dos Grandes Lagos, na África Oriental. Este período, conhecido como Lacuna Pliocénica, é muito ambíguo e não se sabe muito bem o que se terá passado. Só sabemos que entrámos macacos na Lacuna e saímos hominídeos. Como tal, a Paleontologia não corrobora uma ou outra hipótese.

Mas vamos ao que interessa, ou seja, ao desvendar da montanha de características que nos indicam uma provável evolução em meio aquático! Deixo-vos aqui uma para pensarem e nos próximos posts falamos um pouco mais:

Somos o único mamífero terrestre com o chamado "reflexo do mergulho". Quando entramos na água, fechamos automaticamente as vias aéreas superiores e conseguimos encontrar imediatamente o equilíbrio dentro de água. Até um recém nascido é capaz de fazer isto, e de,inclusivamente, nadar! Se atirarmos um chimpanzé à agua, ele entra automaticamente em pânico, esbraceja, grita e afoga-se. Por isso os chimpanzés têm uma fobia enorme à agua! Não são capazes de fechar as vias aéreas nem de se orientarem. Cumulativamente, temos uma capacidade de apneia bastante interessante, que até numa pessoa normal, com algum treino, pode chegar aos 3 minutos!

Os mistérios da nossa proveniência ainda estão por ser desvendados, e acredito que a AAT é o melhor modelo de explicação da evolução humana. Esperem por cenas dos próximos capítulos!