terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Macaca Peculiar - parte V

A infidelidade como ruptura da relação estrita de monogamia é algo que normalmente associamos ao homem. Não é difícil estabelecer esta relação, dadas as diferenças de estratégias reprodutivas. Afinal, o homem produz um grande número de espermatozóides. É o grande fecundador.

Os benefícios de trair, para o homem, podem superar os riscos, através do aumento massivo da probabilidade de transmitir os seus genes para a geração seguinte. Contudo, não nos esqueçamos que a "outra" também é uma mulher normal, com as mesmas capacidades de manipular o momento em que escolhe engravidar. E o risco de ser apanhado, pondo em causa o investimento genético com a legítima parceira é enorme. Portanto, a traição masculina não é assim tão significativa tendo em conta a capacidade biológica que o homem realmente tem para trair. Há sempre uma medição inconsciente por parte do homem relativamente a esta lógica de risco/benefício. Freud chamar-lhe-ia superego, como um conjunto de atribuições de ordem moral que nos impedem de seguir a pulsão primordial. Eu substituiria a ordem moral pela capacidade inata de medir a optimização de um comportamento.

Também não nos podemos esquecer que a mulher também trai. Senão, não haveria sustentação para o conceito de "incerteza de paternidade".

Há uns anos atrás, tomei conhecimento de dados privilegiados dos quais não posso revelar a fonte sob pena de incorrer em grave incumprimento deontológico, mas que, na generalidade, posso descrever: um estudo genético sobre uma doença hereditária era levado a cabo com famílias de uma dada região, portadoras do gene responsável pela doença. O procedimento incluía, obviamente, análise do cariótipo e dos alelos em questão, e alguns resultados foram intrigantes: cerca de 9% das crianças eram apenas filhas da mãe (não foi preciso fazer teste específico para a paternidade, dado que o modelo de transmissão para o gene em causa permitia chegar a essa conclusão; as famílias em que isso se verificava foram retiradas do estudo com um agradecimento e uma desculpa qualquer, não tendo sido reveladas as causas).

O facto é que as mulheres são igualmente infiéis, mas tendem a esconde-lo mais que os homens. estes, em muitos casos, parecem ter um desmedido orgulho nas suas facadinhas. Portanto, a infidelidade masculina tende a ser sobrestimada e a feminina subestimada, o que nos dá a ideia que os homens é que são os grandes promíscuos.

Em termos evolutivos, a infidelidade feminina poderá estar relacionada a limitações na oferta masculina. O facto de ser a mulher a escolher não significa que ela consiga fazê-lo da melhor forma dadas as opções que se lhe afiguram. Aliás, é muito frequente em meios frequentados por mulheres ouvir dizer que há poucos homens de jeito e os que existem já estão ocupados.

No acto de escolha, a fêmea humana aprecia primeiro os bons genes: homens saudáveis e robustos, fortes caçadores do Paleolítico, capazes de dotar com maior probabilidade os seus filhos com os mesmos genes e capazes de lhes dar protecção e alimento. As mulheres estão geneticamente programadas para detectar e preferir, na esmagadora maioria das vezes, essas características, que nos homens se reflectem na alta estatura, massa muscular abundante e elevada simetria facial.

Acontece que, actualmente, existem dois factores que podem por em causa a relação risco/benefício desta escolha: por um lado, a caça simbólica actual já não exige a robustez física e a saúde que a caça efectiva exigia. A inteligência e a esperteza parecem ser mais eficazes que a robustez física na angariação de recursos, ou seja, os empregos intelectuais neste momento dão mais dinheiro e notoriedade que os braçais; por outro lado, o sistema de propriedades actual e a transmissão vertical destas por herança fez surgir homens mais ricos, capazes de garantir mais recursos à descendência. Neste contexto, a mulher muito provavelmente casar-se-à com o mais rico e/ou inteligente e terá filhos com o musculado, garantindo benefícios máximos pela escolha do melhor de dois mundos. Mas provavelmente poderá usar apenas um deles para as duas funções, e o inteligente parece, actualmente, ganhar a dianteira. Ou então tem a sorte de encontrar um que tenha todas as características. Seja de que forma for, qual a mulher que não quer um homem rico, inteligente e bonito?

domingo, 21 de novembro de 2010

A Macaca Peculiar - parte IV

O prazer sexual é talvez a característica mais comum entre homem e mulher, no âmbito das estratégias reprodutivas. A evolução do prazer sexual está ligada, necessariamente, à necessidade que a mulher tem de garantir um bom angariador de recursos e prestador de cuidados por perto, pois é mais um daqueles factores que incentiva a cópula, mesmo que não seja por razões reprodutivas. Por si só, o prazer sexual justifica a cópula, mas é muito conveniente à mulher, pois assim garante que o homem continue a tentar fertilizar o ovócito, pois desconhece o momento certo para o fazer.

Por esta altura, o leitor já deve estar mais que chocado com toda esta perspectiva meramente evolutiva do sexo. Claro que o prazer sexual, como todos os comportamentos sexuais humanos, tem que ser compreendido no âmbito da sexualidade, que os integra num vasto conjunto de interacções afectivas, emotivas, sensoriais, mentais, e de determinantes culturais e sociais. Não sou fundamentalista ao ponto de dizer que a sexualidade se esgota na reprodução. Antes pelo contrário, ultrapassa-a, e de que maneira. Isto já tinha começado a ser esclarecido no artigo "O Macaco Gay - parte I", quando descrevi o comportamento sexual do bonobo (Pan paniscus), tendo ficado patente que há muitas espécies nas quais o sexo não está sempre directamente relacionado com a transmissão de genes para as gerações seguintes.

Dizer que a sexualidade é fruto da evolução é diferente, portanto, que dizer que a sexualidade é exclusivamente orientada para a reprodução! Não troquemos a causa pelo efeito, que é aliás um erro em que frequentemente se cai quando se discute este tipo de conceitos. Sentimos prazer porque evoluímos nesse sentido, pois o prazer está relacionado com a estratégia reprodutiva humana. Não quero dizer com isto que devamos orientar o prazer sexual exclusivamente para a reprodução, coisa que algumas religiões, particularmente a católica, têm defendido ao preconizar a abstinência sexual.

Actualmente, a liberdade de escolha da mulher relativamente à concepção é, nas sociedades liberais, um direito fundamental. Os contraceptivos - principalmente a pílula - vieram ditar novas regras nas estratégias sexuais, e o que se tem visto é que quer mulheres, quer homens, têm investido noutros tipos de traços comportamentais. A mulher tem um papel mais determinante num mundo que era classicamente dominado por homens devido às imposições culturais da sociedade judaico-cristã. Podemos até dizer que a mulher de hoje, no mundo ocidental, se aproxima mais da mulher tribal ancestral em termos de poder dar largas à sua liberdade fora do círculo de controlo dos machos, pois nada nos leva a pensar que as tribos humanas primitivas fossem patriarcais. Hoje a mulher pode obter uma libertação relativa dos determinantes biológicos da sexualidade e exercer o seu direito de livre arbítrio. Talvez a incerteza da paternidade e a necessidade de manter o mesmo macho por perto tenham perdido alguma força nos comportamentos que favorecem a selecção natural, mas a mulher continua a dominar a estratégia sexual reprodutiva da sua espécie. O próprio homem terá adaptado ligeiramente as suas parcas estratégias. Preocupa-se mais com as questões higiénicas da sua imagem, com o parecer mais novo, mas principalmente com os aspectos mentais, dado que a intelectualidade é actualmente mais valorizada - é ela que dá melhores empregos com maiores rendimentos e notoriedade - e é hoje um caçador simbólico no seu emprego motivante, nos desportos que pratica, nos objectos de valor que colecciona. No entanto, tal como no Paleolítico, é o homem que continua a ser escolhido pela sua capacidade de transmitir bons genes, angariar recursos e prestar cuidados à prole, e é a mulher que continua a escolher, embora dê muitas vezes a ilusão da capacidade de escolha ao homem. E continuamos a apaixonar-nos. E a manter relacionamentos tendencialmente monogâmicos, e a casar e a ter filhos.

Hoje, nas sociedades liberais, podemos fazer o que quisermos com os nossos corpos. Mas isso não invalida que não sejamos fruto da nossa evolução, o que significa que continua a haver sempre uma maior probabilidade de expressar os comportamentos na razão em que eles evoluíram.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A Macaca Peculiar - parte III

As diferenças entre macho e fêmea na espécie humana não se ficam pela diversidade de estratégias de produção de gâmetas e pela adopção de sinais visuais de substituição para a excitabilidade sexual. Há muitas mais! Ainda sem entrar na melindrosa análise comportamental, continuemos a apreciar as particularidades da fêmea, agora sob o ponto de vista fisiológico: ao contrário dos outros primatas, da generalidade dos mamíferos e de muitos outros seres vivos, a mulher não tem uma época reprodutiva específica. Não há uma altura do ano em que os Homo sapiens acasalem e tenham ninhadas. Isto pode acontecer seja Verão ou Inverno, faça calor ou frio.

Na altura do "cio", as outras primatas encontram-se disponíveis para o acasalamento, sinalizando ao macho a altura da ovulação através da secreção de feromonas, do ruborescimento e entumescimento da vulva e tecidos adjacentes e de determinados comportamentos que dão a entender que o período fértil está a acontecer. A fêmea humana, pelo contrário, é capaz de esconder completamente o período da sua ovulação, sendo impossível ao macho detectar quando é a altura certa para depositar a sua "semente".

No fundo, o que a mulher pretende com estas características é explorar um dos maiores temores do macho: a incerteza de paternidade. Há um velho ditado português que resume magistralmente este conceito: "filhos da minha filha, meus netos são; filhos do meu filho, serão ou não". É a sabedoria popular de mão dada com a Sociobiologia!

De facto, o comportamento reprodutivo dos machos de muitas espécies evoluiu no sentido de diminuir ao máximo a incerteza de paternidade, e no homem, não é diferente. Principalmente se atendermos ao facto de que nos humanos, o homem assume uma parte cabal nos cuidados parentais e na angariação de recursos para os filhos. Este grande investimento só faz sentido se for feito nos próprios genes, pelo que se compreende que uma das maiores angústias de um homem é não ter a certeza de ser pai dos seus filhos e uma das maiores humilhações, senão a maior, é descobri-lo.

Daqui se depreende que todas estas características da mulher contribuem para manter a monogamia como estratégia preferencial, não obstante o macho ter uma tendência meramente fisiológica para a poliginia. Ao esconder o período fértil e a ovulação e ao permitir a reprodução ao longo de todo o ano, a fêmea "prende" um dado macho, que terá que se manter por perto para assegurar que terá sucesso numa das tentativas de fertilização, ao mesmo tempo que impede que outro o faça por ele quando não estiver a ver.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A Macaca Peculiar - parte II

Ao longo da nossa evolução, a fêmea humana foi-se dotando dos mecanismos que a tornam no animal mais dissimulado, enganador e maquiavélico de todos.

Apelo às mulheres que me lêem, que se refreiem de me esganar na rua e tentem analisar até ao fim esta série de artigos, pois como sabem, não estou aqui a fazer a reivindicação ideológica do machismo nem de coisa nenhuma, mas antes a esclarecer com conceitos biológicos o nosso comportamento. Doa a quem doer, a Biologia é a melhor forma de nos conhecermos a nós mesmos, mesmo que isso nos force a tomar consciência das nossas fraquezas e limitações. É, quanto a mim, o mais seguro passo para o desenvolvimento da tolerância e respeito mútuos.

Voltando à carga, algumas das alterações mais visíveis na mulher tiveram origem quando nos pusemos de pé e passámos a andar em duas patas (que, como já expliquei num artigo anterior, poderá ter acontecido porque precisávamos dos dois braços para transportar alimentos e crianças, ao contrário do que advogam as perspectivas clássicas, que era para ver por cima das ervas altas da savana). O facto é que, quando nos pusemos de pé, passámos a ver-nos de uma forma completamente diferente da dos nossos ancestrais: começámos a olhar-nos de frente. Isto alterou fortemente os sinais visuais que levam á cópula. Passo a esclarecer: os símios arborícolas, dos quais descendemos tal como os nossos familiares chimpanzés, gorilas e orangotangos, eram quadrúpedes e, como tal, durante o período reprodutivo, o macho abordava a fêmea por trás, pois é a forma natural dos quadrúpedes estabelecerem o contacto genital. Nestes animais, tal como nos quadrúpedes actuais, as nádegas e a vulva estão expostas, completa ou parcialmente visíveis, e servem de identificador visual para a excitabilidade do macho, incentivando o início da cópula. Acontece que, quando os nossos ancestrais evoluíram para a postura erecta e a locomoção bípede, a vulva passou a localizar-se em baixo e não atrás, e por isso escondida, e a própria posição da cópula passou a ser predominantemente frontal, perdendo as nádegas uma relativa importância de sinalização.

Em contrapartida, a fêmea humana sofreu uma evolução no sentido de desenvolver sinais de substituição dos primordiais: lábios carnudos a rodear a boca e mamas! Comparemos: os símios actuais que evoluíram a partir dos mesmos ancestrais que nós, ou seja, os chimpanzés, gorilas, orangotangos, apresentam todos lábios finos e as fêmeas não têm mamas como as nossas. Apenas glândulas mamárias que secretam e armazenam leite quando necessário. As mamas humanas são diferentes, pois a rodear as glândulas mamárias existe tecido adiposo que não tem qualquer função fisiológica senão a de dar a conhecida forma redonda. As mamas têm, assim, uma função meramente estética: são nádegas de substituição! Tal como os lábios são vulvas de substituição também.

Entendido isto, não parece difícil compreender a fixação do macho humano pelas nádegas, mamas e por lábios femininos carnudos. São as principais características físicas que os homens valorizam numa mulher no momento de prenderem a sua atenção, e são os principais alvos de cirurgia estética: botox, implantes mamários, remodelação dos glúteos. Tudo para que a fêmea se torne mais apetecível aos olhos do macho.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A Macaca Peculiar - parte I

Se eu vos perguntasse qual a característica que mais nos distingue dos outros animais, de certeza que as respostas iriam andar à volta do raciocínio, consciência, inteligência, cultura, pensamento, emoções, sentimentos...

Mas então, se eu ao longo de todos estes artigos, tenho procurado desmistificar o comportamento humano, por que carga de água haveria de perguntar algo com respostas aparentemente tão óbvias e consensuais? Pela simples razão de aquilo que tomamos como certo ser o resultado de séculos de pensamento antropocêntrico - ah, somos maravilhosos seres pensantes e, por isso, superiores a todas as outras manifestações de vida - e de crenças teocêntricas - oh, somos a criação pródiga de uma entidade superior, feitos à sua semelhança e, por isso, superiores a todas as outras manifestações de vida.

No entanto, somos animais. Sujeitos como eles às mesmas forças evolutivas de selecção natural, o que desmente a perspectiva antropocêntrica, e essa evolução baseia-se nos paradigmas delineados por Darwin e na sua sustentação pela Biologia Molecular, Genética, Paleontologia..., ou seja, séculos de constantes teorias validadas experimentalmente e em constante evolução, contrariando sempre e cada vez mais, as supostas verdades absolutas do pensamento religioso, o que desmonta a perspectiva teocêntrica.

Se as capacidades reflexivas e meta-reflexivas são realmente um grande factor de distinção do Homo sapiens relativamente aos outros animais, aquilo que realmente mais nos diferencia é a reprodução, nomeadamente a enorme distinção de estratégias entre os sexos e as peculiaridades morfológicas, fisiológicas e comportamentais da fêmea do H. sapiens, comummente designada mulher.

Comecemos pelas características fisiológicas, que são as mais simples de compreender: o homem consegue produzir milhões de espermatozóides por dia. Ao todo produz biliões desde a puberdade até à morte. Mesmo em idades muito avançadas a produção, apesar de diminuir seriamente, nunca pára, pelo que não existe uma verdadeira andropausa. Já a mulher produz um limitadíssimo número de ovócitos desde a puberdade até à menopausa, que acontece por volta dos 40-50 anos. E mais: ao contrário do homem, que tem uma produção constante, a mulher apenas produz uma célula reprodutiva a cada 28 dias em média. Daqui se depreende que o homem investe na quantidade - o que é muito comum em muitas espécies - e a mulher na qualidade - o que também não deixa de ser usual em muitos animais. O que não é muito normal é esta enorme disparidade de estratégias reprodutivas se encontrar na mesma espécie, pois a lógica aponta para que, se é necessária eficiência reprodutiva, o macho e a fêmea têm que concertar estratégias ao longo da sua evolução.

Dadas as diferenças, seria de esperar que o homem fosse um grande fecundador, um animal programado para inseminar um grande número de mulheres num curto espaço de tempo. Só que isto, apesar de ser possível, na realidade não acontece. E não é por causa da ética, nem da moral ou das ideias religiosas. É porque a mulher domina completamente as estratégias reprodutivas da sua espécie.

domingo, 14 de novembro de 2010

Compreender Sociobiologia

Ao discutir a base biológica dos comportamentos, muitas vezes sou confrontado pelo meu interlocutor com exemplos soltos sobre um amigo, conhecido, familiar ou até figura pública, que não segue o padrão comportamental que eu descrevo, e na maior parte dos casos, isso é suficiente para que o interlocutor tome por inválida a teoria subjacente. Como isto já me aconteceu várias vezes e com pessoas diferentes, começo a pensar que é uma dificuldade recorrente na divulgação do pensamento sociobiológico.

Acontece que somos muito facilmente dominados pela lógica indutiva. Tomamos uma explicação como certa se houver um pequeno número de casos que a comprovem, assim como refutamos facilmente uma teoria se houver um pequeno número de casos que se lhe oponham. Como se não bastasse sermos influenciados pelas perspectivas antropocêntricas e teocêntricas, ainda temos estas dificuldades filosóficas na explicação biológica do comportamento.

No entanto, estes entraves são fáceis de debelar. Temos é que ter alguma paciência. Podemos começar por explicar que as teorias do comportamento não são absolutamente directivas. Não são como as leis da Física, não têm a mesma consistência hermética na explicação dos fenómenos. O que as teorias do comportamento nos dizem é que, em dado ambiente, há uma maior probabilidade de se expressar um dado traço comportamental. A Sociobiologia não nos diz, portanto, que agimos todos da mesma forma porque os nossos genes nos mandam. Usa, antes, o maior laboratório experimental da natureza - a evolução pela selecção natural e sexual - para explicar comportamentos sociais animais e humanos.

O facto é que os animais (o que nos inclui), evoluíram da forma que evoluíram na interdependência da expressão de comportamentos com maior frequência num dado ambiente, o que nos dá uma aproximação probabilística de expressarem os mesmos comportamentos no presente e no mesmo enquadramento ambiental. Trata-se, portanto, de uma análise complexa muito semelhante, por exemplo, à abordagem epidemiológica, com a agravante de contar com muitos mais factores que contribuem para diminuir a previsibilidade de ocorrer um dado comportamento.

O grande desafio da Biologia do Comportamento Humano é, na minha opinião, estudar a mudança da variável ambiental no comportamento, visto que já pouco resta do ambiente original onde evoluímos - as aldeias tribais. O facto de vivermos actualmente em ambientes muito diferentes dos primórdios, sem termos tido uma evolução genética (10.000 anos é muito pouco, quase nada em termos evolutivos), condiciona necessariamente a probabilidade de expressarmos um dado comportamento em analogia com o traço ancestral.

Se já está mais que provado que os genes têm um papel fundamental no comportamento humano, há ainda muito para desbravar no que diz respeito à sua interacção com estes ambientes urbanos modernos.

Tudo aponta, no entanto, para que os mesmos comportamentos que tínhamos no Paleolítico, se verifiquem na actualidade, se bem que com um certo grau de adaptabilidade a novas realidades.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

As dúvidas do macaco

No post anterior, O Macaco Gay - parte III - referi que "o apoio familiar potenciaca a transmissão de genes de parentes próximos", como se fosse a coisa mais natural de se dizer. No entanto, lembrei-me de que quem me lê não tem exactamente o mesmo background teórico que eu e que, muito provavelmente, não iria perceber o porquê do fenómeno descrito.

A ideia que descrevi deu azo a uma das maiores discussões da Biologia do Comportamento. Lembram-se de há uns posts atrás eu ter falado da safada da gazela de Thompson, que se põe aos saltos como uma maluca para dizer ao leão que é saudável e para ele ir comer as outras? Antes, os etólogos (cientistas que estudam a evolução do comportamento animal) pensavam que a gazela fazia isso para chamar a si a atenção do leão e sinalizar às outras para fugirem. Era o conceito de selecção de grupo, em que um indivíduo abdicava da possibilidade de se reproduzir (sim, se o leão a comesse, ela não teria filhos), em benefício das outras gazelas. Claro que, depois de muita porrada académica e muita agressão teórica (os cientistas são muito maus uns para os outros em geral), essa ideia foi abandonada em detrimento da selecção individual, que advoga que os nossos comportamentos são direccionados para o auto-favorecimento, ou melhor, para o aumento da probabilidade de passarmos os nossos próprios genes para a geração seguinte (a brilhante teoria do "gene egoísta" do Richard Dawkins), e, quando muito, da selecção de parentesco, que nos diz que um indivíduo pode abdicar da sua reprodução a favor de outro que lhe seja geneticamente muito próximo, como um parente directo, pois nesse caso, há uma fracção dos genes do indivíduo que terão maior probabilidade de passar para as gerações seguintes. Isto foi pela primeira vez descrito nos himenópteros eussociais (leia-se vespas, abelhas e formigas), em que as obreiras evoluíram como estéreis numa sociedade organizada, pois isso favorece a perpetuação de mais genes idênticos aos seus por linhagem da rainha do que se fossem elas próprias a reproduzirem-se. Nos humanos temos o caso típico da tia solteira, que como não se pôde reproduzir, orienta os seus recursos (atenção, carinho, comida, dinheiro), para os sobrinhos, pois assim aumenta a hipótese de ver uma parte significativa dos seus genes chegar às gerações seguintes. No fundo, é a bela ideia da bondade natural humana completamente achincalhada por factos científicos, ou como somos todos uma cambada de egoístas sem escrúpulos, mesmo quando estamos a ajudar alguém, e a culpa é dos genes.

Contextualizando no post anterior, como evoluímos de macaquinhos mais ou menos solitários a apanhar frutos em cima das árvores, para humanos tribais com famílias alargadas e grande divisão de tarefas, é possível que o grande apoio familiar tenha aliviado um bocadinho a pressão de nos reproduzirmos, pois haveria provavelmente outra pessoa proximamente aparentada que o faria por nós... eh... desculpem, pelos nossos genes. Daí, a probabilidade de haver expressão de comportamento homossexual pode ter aumentado. É apenas uma conjectura, mas que pode ajudar a explicar mais algumas coisas, como por exemplo o facto de algumas pessoas não quererem ter filhos e efectivamente viverem toda a vida sem se arrependerem de tal.

Posso estar errado, sim. Mas é, por exemplo, constatável que populações economicamente menos favorecidas têm tipicamente maior taxa de natalidade. Será apenas do nível socioeconómico ou será que a limitação de recursos e apoios familiares potencia a necessidade urgente de deixarmos genes na geração seguinte? O "cada um por si"? É que em Sociobiologia, as estratégias reprodutivas dependem directamente da disponibilidade de recursos. Pensem nisto.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Macaco Gay - parte III

Tal como para a violência, a pressão do ambiente artificial urbano pode contribuir para o aumento da frequência dos comportamentos homossexuais. Mas aumento em relação a quê? Às sociedades tribais ancestrais! É possível que houvesse homossexualidade desde os primórdios da humanidade, da mesma forma que nada indica que não existissem humanos violentos no Plistocénico, ou outros que se divertissem a fazer o pino ou a bater com paus em troncos ocos ou a pintar cavernas ou a correr como malucos sem precisarem de ir a lado nenhum. E tudo isto advém, directamente, da nossa organização social complexa. O facto de vivermos em grupos multifamiliares alargados levou a que houvesse uma grande divisão de tarefas entre homens, mulheres, crianças e velhos. Já não era necessário cada indivíduo suprir todas as suas próprias necessidades e passámos a contar com um mecanismo eficiente na poupança de tempo e energia: a sociedade humana.

De repente vimos-nos com uma disponibilidade enorme de tempo e energia que não tínhamos que dedicar à sobrevivência e reprodução, e começámos a usa-los noutras coisas. A arte, por exemplo, vem daí.

Possivelmente, o excesso de tempo e o facto de que o apoio familiar potenciava a transmissão de genes de parentes próximos, entre muitas outras coisas, pode ter levado a que alguns indivíduos com pulsão sexual tendencialmente ambígua ou homo-orientada se tivessem aliviado um bocadinho da obrigação da reprodução e se tivessem orientado para pessoas do mesmo sexo. Agora, como é que este comportamento evoluiu? Não faço ideia!

No meio de todas estas conjecturas, talvez o mais difícil de explicar seja o porquê de muitos homossexuais referirem que sempre se sentiram assim desde que se lembram, e que provavelmente já nasceram assim. Talvez resulte, quem sabe, de uma modelação hormonal do desenvolvimento neurológico in utero, talvez seja mesmo uma expressão de genes (e como tal, um produto da evolução), talvez a educação e as influências ambientais possam ter um papel preponderante desde muito cedo, talvez seja tudo isto e mais alguma coisa. Talvez...

O facto é que a homossexualidade existe, tal como existem a bissexualidade, a transsexualidade e a assexualidade, e o mais importante disto tudo é que se trata de pessoas que merecem toda a tolerância, compreensão, abertura de espírito e, principalmente, toda a liberdade de manifestar os seus sentimentos.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O Macaco Gay - parte II

Estando esclarecidas as verdadeiras razões do comportamento homossexual do bonobo, os reivindicadores ideológicos viraram-se para outros bichos, como por exemplo, os pinguins. Acontece, porém, que todos os animais aos quais se tentou imputar a homossexualidade como comportamento natural, eram animais em cativeiro, e não é possível extrapolar comportamentos em cativeiro para o ambiente natural, dado que o ambiente é uma variável preponderante no comportamento.

Neste ponto, tenho uma palavra a dizer: nós, humanos, evoluímos durante milhões de anos em grupos multifamiliares tribais de cerca de 200 indivíduos, em aldeias onde toda a gente se conhecia. Apenas há 10000 anos, com o advento da agricultura, é que começaram a surgir as primeiras civilizações urbanas, nas quais vive actualmente a maior parte da humanidade. Geneticamente somos, portanto, caçadores-colectores a viver num ambiente radicalmente diferente daquele onde evoluímos. Diria que vivemos num cativeiro urbano, com pressões enormes provocadas pela presença de estranhos - algo a que não nos adaptámos evolutivamente - e até pela incapacidade de satisfazer o nosso primordial "instinto" de caça. Isto provoca, necessariamente, o aumento da probabilidade de surgirem perversões nos comportamentos naturais, ou até traços comportamentais completamente desadequados às situações. A violência, por exemplo, é um desses comportamentos que não encontram explicação na teoria de optimização comportamental, que nos diz que a probabilidade de expressar um comportamento depende da relação entre riscos e benefícios desse mesmo comportamento, e os comportamentos de confronto violento acarretam sempre mais riscos que benefícios para o indivíduo. O risco de ficar gravemente ferido ou até morrer, ou o risco de ser ostracizado pelos pares deviam ponderar na decisão a tomar. Como tal, os comportamentos violentos são raríssimos na natureza e são evitados através da agressividade, que muitas vezes se reflecte numa demonstração de força ou numa encenação. O mostrar os dentes, o rosnar, o abrir as asas para parecer maior, o simular uma carga (que é típico dos elefantes), são exemplos de comportamentos agressivos que muitos animais demonstram para fazer valer os seus interesses territoriais, alimentares ou de parceiros reprodutores. É uma espécie de "não te metas comigo que eu sou mau e maior e mais forte que tu". E resulta na esmagadora maioria das vezes. Nós também o fazemos, quando assumimos uma pose hirta, um ar duro, uma expressão facial carregada. Quando discutimos e levantamos a voz, ou até mesmo quando damos um empurrão ou um tabefe, mas não nos andamos a ferir gravemente ou a matar-nos uns aos outros, se bem que em certas franjas marginalizadas da sociedade isso aconteça com relativa frequência e resulte, principalmente, do acumular de pressões urbanas de que falei anteriormente, o que vai causar uma sensação constante de medo, perseguição, inadaptação social e o sentimento de não ter nada a perder. Não é por acaso que os comportamentos violentos surjam muito mais frequentemente em grandes cidades onde a pressão é implacável e os contrastes sociais são enormes. Rio de Janeiro, São Paulo, Cidade do México, Los Angeles, Nova Iorque, Lagos, Joanesburgo...

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O Macaco Gay - parte I

A explicação dos comportamentos homossexuais humanos é um terreno extremamente pantanoso para os biólogos do comportamento. Isto porque partimos muitas vezes do princípio que todo o nosso comportamento visa maximizar a probabilidade de passarmos os nossos genes para a geração seguinte. Então, como é que nós, que segundo Dawkins, somos não mais que veículos efémeros para a perpetuação dos genes, assumimos comportamentos completamente desfavoráveis a esse princípio? O que poderia ser paradoxal do ponto de vista estritamente sociobiológico pode deixar de o ser quando entendemos o comportamento humano num modelo complexo multifactorial, extremamente difícil de relacionar e explicar.

Os geneticistas andam apostados, no entanto, na procura de "genes da homossexualidade" que nos predisponham, em dados ambientes favoráveis, a revelar esses traços comportamentais de anulação ou perversão do impulso reprodutivo. Parece ser uma abordagem válida, pois parte-se do princípio que os homossexuais são uma minoria, o que justifica o facto desses supostos genes terem resistido às pressões de selecção natural, pois teriam tido, ao longo da evolução, uma expressão mínima, que no entanto, em algumas circunstâncias, poderia ter sido potenciada pela aquisição de favores ou relacionamentos hierárquicos. Muito complexo.

Depois, temos as perspectivas clássicas da Etologia, fundadas principalmente no estudo do comportamento de símios. Primeiro, foi a constatação de comportamentos homossexuais no chimpanzé pigmeu, ou bonobo, muito convenientemente taxonomado Pan paniscus. Estes simpáticos símios, em tudo semelhantes a um chimpanzé comum, mas mais pequenos, usam o sexo como forma de recompensa social e como modelador da força das relações de hierarquia no seio do grupo, sendo que ocasionalmente praticam coito homossexual para os mesmos propósitos. Portanto, e como os etologistas ajudaram sobremaneira a clarificar, existem espécies nas quais o sexo não está exclusivamente relacionado com a reprodução, servindo também como uma ferramenta de mediação da interacção social. Se à interacção social juntarmos prazer consciente e afecto, temos os humanos! Aliás, o P. paniscus não é mais nem menos que a espécie que mais próxima está geneticamente de nós, o que pode ser uma pista para desvendar este mistério.

Claro que no meio disto tudo, houve grupos, principalmente de defensores de direitos dos homossexuais, que descontextualizaram as descobertas, fazendo a reivindicação ideológica da naturalidade do comportamento homossexual do macaco e generalizando. Uma espécie de "se os animaizinhos também o fazem, é porque é natural e não podemos ser condenados por isso". Verdade na parte do "não podemos ser condenados por isso", omisso no "é natural", pois não estão descritos os motivos e mentira no "os animaizinhos também o fazem", porque não são todos, nem muitos, mas apenas alguns poucos e em determinadas condições.

(Nota: o título desta série de posts, "O Macaco Gay", é uma alusão ao livro do Desmond Morris sobre comportamento humano: The Naked Ape, O Macaco Nu.)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ela move-se e nós somos primos do macaco

Há umas semanas atrás, um aluno daqueles como já não há muitos,veio-me pedir umas sugestões para um ciclo de debates multitemático, cujo tema era um muito pouco explícito "genes e agressividade". Satisfeito da vida por pensar que havia um interesse crescente sobre a base genética do comportamento, lá o fui orientando como pude, levando-o pelos meandros da evolução do comportamento social animal e humano, hormonas, neurotransmissores, selecção natural, princípios da optimização comportamental e o verdadeiro significado da agressividade, como um comportamento natural, extremamente útil pelo seu papel poupador de energia e evitador da violência e de confrontos agonísticos extremos, com mortos e feridos, que só têm desvantagens para qualquer um dos intervenientes. Bibliografei-o com passagens de teses de mestrado e livros de linguagem clara e simples sobre o espaço interpessoal, o território, a linguagem corporal, e observei-o encantado por conhecer uma nova realidade e poder atirar-se às feras devidamente documentado e plenamente consciente.

Ontem voltou com um misto de conformação e revolta. É que aqueles filhos de... Rousseau dos promotores e moderadores do debate achavam que a agressividade é uma coisa muito má que devia ser banida da sociedade e que os mauzões agressivos tinham um gene mau que os fazia assim. Como tal, os argumentos do meu pobre pupilo foram deitados por terra por um pressuposto falso, uma inconsciente e inocente suposição tácita tomada como verdade absoluta, e de nada lhe valeu toda a documentação que levava nem a sua corajosa capacidade de argumentação.

Não me restou muito mais que deixá-lo orgulhoso da sua derrota, comparando-o a um Galileu em pleno auto-de-fé, ou a um Darwin achincalhado pelos fixistas, e encorajei-o a continuar os seus estudos.

De facto, a história da ciência é pródiga neste tipo de acontecimentos. Aparece alguém a explicar a realidade de uma forma diferente e é logo vilipendiado por todos os outros, que se restringem ao conforto da teoria ortodoxa ou do dogma. Esses casos são tão mais graves quanto mais se avança nos paradigmas científicos. É que nem Galileu possuía modelos físicos e matemáticos pré-existentes que suportassem a explicação dos seus achados, nem Darwin tinha consigo a biologia molecular e a genética. Mas "no entanto ela move-se" e nós somos primos do macaco.

Galileu e Darwin tiveram que lutar contra dogmas. Hoje é epistemologicamente correcto dizer que nas ciências não existem verdades absolutas, ou como Kuhn explica, a ciência constrói-se com uma sucessão de paradigmas que explicam a realidade de forma sucessivamente diferente, e como tal, nenhum deles tem carácter definitivo. Daqui se depreende que a luta actual da ciência já não é contra a religião mas sim contra si própria, usando para tal essa coisa do método científico (que não é a sucessão hermética de acontecimentos que se aprendem nas aulas laboratoriais), e principalmente boas bases teóricas, trabalho experimental bem desenhado e resistente a erros e muita estatística que nos permita ter segurança nas associações que estão por detrás das hipóteses. Depois é só informar sobre as descobertas (papers, teses, livros, congressos, workshops...), aplicá-las na prática e seguir sistematicamente a sua aplicabilidade.

Se muitos cientistas claudicaram na apresentação de novos conhecimentos, o que o meu aluno foi defender não era, no entanto, nada de novo, mas sim algo teoricamente e experimentalmente por demais comprovado, e para o explicar, teve que se debater com algo muito mais perigoso, melindroso e arrogante que os dogmas: a ignorância. E perdeu...