quarta-feira, 13 de março de 2013

Fumo branco?

E pronto, já há um novo Papa. Ao tempo que escrevo este texto, estamos a minutos de saber quem é o homem. Pena que de antemão já se saiba que é "homem" e não uma mulher. Só por aqui se vê o quanto a instituição ICAR ainda está tão atrás do nosso tempo secular. Numa altura em que a igualdade de direitos entre os géneros é um dado mais que adquirido, nem que seja apenas no papel e no ideal, a ICAR ainda vive no paradigma social de há 2000 anos atrás.

Ouve-se muita esperança. Que este novo líder tenha a capacidade de mudar muita coisa. Eu não podia estar menos optimista. Vai ser mais do mesmo, pois quem quer que seja, reflecte nada mais que uma "teologia" dogmática presente em todos os últimos. Nunca houve uma abertura que fosse capaz de mobilizar toda a comunidade dependente em termos espirituais das emanações de Roma, no sentido de criar condições para mudar coisas tão importantes e reais como a epidemia da SIDA, a homofobia, o sexismo, os direitos das mulheres, as organizações familiares alternativas...

A ICAR fecha os olhos a tudo isto. Todo o sofrimento humano que daqui advém não diz nada à ICAR. Triste! Agora vamos ver quem é o tipo...

quarta-feira, 6 de março de 2013

O Desenvolvimento - parte II


Se, por um lado, existe uma grande população sem massa crítica suficiente para fazer a diferença, que vive desinformada e, modo geral, desinteressada da actualidade, não aprofundando temas nem compreendendo a sua essência, do outro lado, temos elites socioculturais bem educadas, bem informadas, capazes de traduzir a informação em conhecimento e, por isso, de diagnosticar a situação. Capazes até de encontrar soluções lógicas, realistas, possíveis e aplicáveis para o estado das coisas, mas que pouco fazem. Na maior parte dos casos, não encontram expressão válida para as suas ideias no sistema político vigente. Têm a perfeita consciência da quase impossibilidade de romper através do partidarismo e da tecnocracia do domínio financeiro. Alguns sujeitam-se – pois se não os consegues vencer… - e chamam-lhes “independentes”. A ironia dessa independência…

Muitas destas elites não estão sequer para se aborrecer. Têm o seu emprego, a sua vida. A cultura, para eles, não será tanto um modo de expressão social mas mais um refúgio mental, uma forma de hedonismo.

Sem generalizar, temos uma definição de diferenciações populacionais que se encontra bem patente no efeito de homogeneização dos manifestantes. Em todas as manifestações que tive a oportunidade de ir, não vi os habitantes dos bairros sociais, os beneficiários do RSI, os operários e agricultores, os pobres reformados… em suma, os que mais prejuízo absoluto têm com as políticas da austeridade. Também – salvo aquele abjecto grupo de aposentados ricos que devia ter tido vergonha  – não vi, logicamente, as classes abastadas. O que vi foi muita classe média e média-baixa, gente informada e ideologicamente de esquerda moderada a radical, muitos funcionários públicos e muitos jovens desempregados. Para mim, isto demonstra que a informação, que chega a todos, ou não chega nas melhores condições ou, mais provavelmente, não é interpretada da mesma forma. Ou então, que os limites de tolerância são diferentes entre as classes. Os desfavorecidos estão habituados a aguentar, aguentar. Creio que, no dia em que as classes em privação socioeconómica deixarem de aguentar, aguentar e saírem à rua, não vai haver governo que aguente.

Voltando ao tema central, o que é que nos afasta, então, do desenvolvimento? Na minha opinião, um conjunto de coisas essenciais, entre as quais destaco a educação e o sistema político e a lógica de interdependência entre eles no âmbito democrático.

Em Portugal, a educação sempre foi uma enorme confusão. Com a devida relativização histórica, creio que El-Rei D. Diniz terá feito mais pela educação que 38 anos de Democracia. Houve uma transição muito trapalhona entre o paradigma da “instrução” do Estado Novo, que era uma tremenda aberração de conceito, em que criancinhas nas serranias transmontanas tinham que decorar as linhas dos caminhos-de-ferro em Angola sem nunca terem visto um comboio, e a “escola para todos” do pós-25 de Abril, em que, de repente, um sistema educativo arcaico, subdimensionado e com falta de recursos materiais e, principalmente, humanos, teve que acolher toda a população em idade escolar e apresentar resultados. Para ser justo, estes resultados foram quase milagrosos, pois passámos de um país com uma enorme taxa de analfabetismo para outro completamente diferente num curtíssimo espaço de tempo. Mas isto é apenas quantitativo. Em termos qualitativos, o nosso sistema educativo é uma manta de retalhos feita de reformas atabalhoadas, sem tempo para validar, praticar e avaliar as emanações teóricas de didactas e pedagogos de gabinete, que criam que professores inventados a partir de engenheiros e arquitectos iriam estar preparados para colocar em acção as suas ideias peregrinas. Depois, no ensino público, os recursos humanos tronaram-se um protectorado sindical demasiado poderoso para que houvesse uma real capacidade de mudança. Vejamos a polémica avaliação de professores, que é, em conceito, uma necessidade vital para garantir a qualidade do ensino, mas que se tornou num braço de ferro entre gente demasiado teimosa para fazer qualquer tipo de cedência de parte a parte. A então ministra da educação queria o 80, os sindicatos queriam o 8, e não houve vontade de encontrar um meio- termo. A ministra não entendeu que aquele modelo de avaliação iria acabar com um dos poucos factores de união que existem entre a classe docente, que é a inexistência de relações hierárquicas. Os sindicatos não perceberam que a avaliação poderia ser um factor de qualidade de ensino e de promoção de educação.

Mais uma vez, sem generalizar, eu que já la estive, conheci professores excelentes, capazes de fazer aquilo que é o essencial – criar espírito crítico, relacionando o contexto curricular com o quotidiano e potenciando, assim, a educação para a democracia e para a vida em sociedade. Também conheci verdadeiros colectores de salário, que treparam sem mérito numa carreira criada por eles e para eles, e que nada educavam. Estes são os protegidos dos sindicatos. Não os contratados nem os desempregados. Aliás, o que são os sindicalistas da educação senão professores que não sabem ensinar nem educar?

Não iria ficar em paz comigo mesmo se não dedicasse um parágrafo às Novas Oportunidades, que na intenção e filosofia eram uma iniciativa louvável e no design um programa muito bem concebido, mas que na aplicabilidade deixou muito a desejar. Não houve – principalmente nas escolas públicas – uma formação e consciencialização adequadas dos formadores e professores. Talvez fruto disso, a opinião pública colou-lhe rótulos facilitistas, muito bem aproveitados pela oposição de então, que hoje é governo e legitima valores facilitistas aos seus próprios membros. As NO não resultaram por causa da incompetência e impreparação de quem ficou incumbido de as aplicar, e não porque fosse um mau programa.

De tudo isto, resulta que, em Portugal, nunca se educou para a Democracia mas apenas para objectivos intermédios completamente descontextualizados da realidade.

Quanto ao sistema político, as complicações são imensas. Este sistema não tem praticamente nenhuma representatividade democrática, portanto não tem legitimidade. É um sistema hipócrita, anacrónico e pernicioso, que manipula o pouco eleitorado que tem, servindo-se – lá está – da sua falta de educação para a Democracia.

Hipócrita porque os eleitos e nomeados para cargos políticos não têm, na sua maioria, consciência de qualquer linha ideológica que eventualmente sirva de base ou fachada para o partido a que pertencem. Qualquer indivíduo elegível devia ser sujeito a intensiva formação em história e filosofia políticas. E, assim sendo, mesmo depois de conhecedor, se continuasse filiado num dado partido, certamente deixaria de ser hipócrita ou, na melhor das hipóteses, ignorante, passando a mentiroso descarado. Não há muitas coisas piores do que agitar uma bandeira na qual não se acredita.

Senão, vejamos: existe algo de social-democrata na história ou na actualidade do PPD/PSD? Saberão eles o que é a social-democracia? Praticam-na? Pelo que os governos  compostos por este partido têm demonstrado, a resposta é “não”! Existe, sim, nas suas políticas, um claro domínio tecnocrata e financeiro, e de social-democracia pouco ou nada.

E de socialista no PS? Nem vale a pena discutir. Nunca houve, não há, nem haverá nada de verdadeiramente socialista no Partido Socialista.

Algum deputado do PP saberá, eventualmente, que “popular” vem de “povo”, e que o conceito de “povo” é tão difuso e ambíguo que nem sequer cabe nas sociedades actuais? E, sendo ao mesmo tempo, CDS, ou seja, democratas-cristãos, professam verdadeiramente os valores do cristianismo ou apenas de catolicismo bafiento de sacristia? Mesmo que se digam “centristas”, não estão eles numa direita conservadora, do mais essencial que existe em termos de direita? Não há partido com mais problemas de identidade aparente que o CDS/PP.

Mas ainda não acabei! Será que os deputados do PCP acreditam mesmo que o marxismo-leninismo ainda pode fazer sentido na sociedade actual, ou que ainda existe proletariado? E terão consciência que perderam os seus melhores ideólogos por nunca terem aceitado uma renovação?

E o Bloco de Esquerda, em que esquerda está? Que facções internas dominam? Existe ainda um conjunto de partidos de extrema-esquerda que puxam cada um para seu lado, ou realmente, o PSR impôs a sua corrente trotskista? E se assim for, saberão todos os bloquistas quem foi Trotsky?

É um sistema político anacrónico, pois todas estas linhas ideológicas de fachada remontam ao final do séc. XIX e princípio do séc. XX. É preciso dizer mais alguma coisa? 

sexta-feira, 1 de março de 2013

Santíssimos Homens

O tipo renuncia mas não sem deixar alguma polémica na discussão sobre a pedofilia e homossexualidade na Igreja Católica. Preocupa-me mais que se juntem estas duas designações num único saco, do que propriamente o que se passa na igreja, que isso é lá com eles, desde que não prejudiquem ninguém... o que, infelizmente, nem sempre tem sido o caso.

Muita gente de bem, ou não, também tem relacionado levianamente o celibato com a homossexualidade, com a pedofilia, com as duas ao mesmo tempo, com todos os males da igreja e mais alguns. Aqui é preciso ir com muito cuidado...

Há muito tempo que defendo que, para separar as águas e ficar tudo claro, se devia estudar este problema a fundo, mas de forma fundamentada em evidência. Se a igreja permitisse, um conjunto de grupos de investigação em continentes diferentes fazia um pequeno estudo transversal sobre orientações sexuais e perversões sexuais de sacerdotes, com dados qualitativos e, principalmente, quantitativos, e com total confidencialidade (como aliás as suas ovelhas lhes exigem no momento da confissão), e tentava saber-se se a orientação sexual ou as perversões eram diferentes da população não celibatária. Se as diferenças fossem significativas (estatisticamente, claro), então, que se encontrassem as razões.

Sem isto, acho que nem vale a pena discutir o assunto... ou vale, mas apenas teoricamente, e com alguma elevação e cautelas.

Para já, é preciso afastar completamente e definitivamente as duas questões. Homossexualidade é uma variação normal do comportamento sexual, tão normal quanto a heterossexualidade ou outra qualquer cujos sujeitos não sejam postos em risco. Pedofilia é uma perversão sexual que pode levar a dano, em muitos casos gravíssimo, do sujeito e/ou do objecto. 

Por outro lado, há que distinguir o pedófilo do abusador sexual de crianças. Isto é muito importante, pois uma pessoa pode ser pedófila sem nunca ter praticado abusos, apesar de existir um determinado risco para o fazer. Um abusador é um criminoso que deve pagar a sua dívida para com a sociedade, seja sacerdote ou não.

Depois de tirarmos as coisas do mesmo saco, espero que nos entendamos melhor!

A mim não me preocupa a homossexualidade na igreja. Nem quero, sequer, discutir se há uma razão ou não para que a homossexualidade seja eventualmente maior entre sacerdotes do que entre os não sacerdotes. Isso não faz sentido nenhum. A homossexualidade, como orientação sexual, deverá ter uma distribuição muito semelhante nos dois grupos. Até prova em contrário, fico com esta ideia de fundo. Seria uma bela bofetada de luva branca para muita gente dentro e fora da igreja se isto se verificasse.

Quanto à pedofilia, as coisas já poderão ser diferentes. A génese de uma perversão sexual é necessáriamente diversa da de uma orientação sexual. Nesta, aceita-se que uma pessoa "nasça" predisposta, que seja tão natural quanto uma pessoa ser tímida ou extrovertida, ou  heterossexual... Apenas menos frequente na população. 

Uma perversão sexual, por definição, é um desvio na orientação sexual provocado por desordem de personalidade. Tem, portanto, uma causa e um efeito. Apesar das causas da pedofilia não estarem bem estabelecidas, o que se sabe até agora é que poderá haver alterações neurológicas nos pedófilos com correspondentes consequências psiquiátricas. Alguns estudos indicam hipóteses genéticas como possíveis, o que torna provável a diferenciação comportamental do pedófilo dependente do ambiente. Ou seja, não podemos rejeitar que o ambiente tenha um efeito no comportamento do pedófilo, nomeadamente na passagem da pulsão sexual ao acto em si. 

Hipoteticamente, como "a ocasião faz o ladrão", os seminários, colégios internos e demais locais onde abundem crianças e sacerdotes, serão terrenos propícios à afirmação do comportamento. 

Portanto, e mais uma vez, hipoteticamente, se a proporção de pedófilos abusadores de crianças for maior nos sacerdotes do que na população em geral, poderá ser devido à oportunidade de abusar e não a uma estranha orientação vocacional para o celibato.

O casamento de sacerdotes não resolveria, assim, o problema do abuso sexual de crianças. Quando muito, diminuiria a probabilidade de os abusos acontecerem.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O Desenvolvimento - parte I


Entre muitos erros cometidos por sucessivos governos ao longo de muitos anos de Democracia, creio que o mais grave (e, muitas vezes, o mais subvalorizado), é a forma como o “desenvolvimento” tem sido entendido. Trata-se de um problema de base, paradigmático até, ao nível de todos e de cada um dos valores pelos quais se deve reger uma sociedade.

Fazendo uma reflexão histórica, penso que nunca chegámos a sedimentar uma verdadeira ideia de “desenvolvimento”, um plano contínuo, holístico e adaptativo de como queríamos que a sociedade se comportasse a longo prazo. Em poucos anos, o “desenvolvimento” assente em bases meramente ideológicas e, já à altura, completamente anacrónicas do pós-25 de Abril, do PREC, do “socialismo” constitucionalista, deu lugar a um “desenvolvimento” apenas assente no capital, no valor figurativo do dinheiro e na abstracção dos “mercados” como solução para todos os problemas. Ou seja, nunca houve verdadeiro desenvolvimento, mas apenas reformas sucessivas para resolver problemas detectados muito tardiamente. Reformas essas que, nos dias que correm, atingiram estatuto de “refundações”, perdendo de vez qualquer vestígio de fio condutor que eventualmente as unisse ou legitimasse. Refundar significa fundar de novo, ou seja, cortar com o estabelecido e iniciar um caminho próprio, sem o peso – e a lição! – do passado e sem um verdadeiro movimento legitimado pela vontade  e necessidade das comunidades.

Ora, isto até podia ser positivo, se houvesse nessa refundação um plano de desenvolvimento que fosse fundamentado e não fosse feito à custa dos mesmos de sempre: os desfavorecidos. Estes já não são apenas o “povo” do velho paradigma social, já não são o “proletariado” do leninismo nem os “pobrezinhos” do fascismo. São também, e principalmente, os que querem trabalhar e não podem, os que querem investir e não conseguem, os que estudaram e não são necessários, os que se têm que agarrar à dignidade porque já foram perdendo todo o resto.

Que ninguém se iluda: não nos vamos conseguir desenvolver enquanto os nossos governantes não souberem o que é “desenvolvimento” e – mais importante! – enquanto os eleitores não entenderem e não levarem à prática esse conceito, exigindo-o fundamentadamente.

Não que o conceito em si seja complexo de entender por parte daqueles que têm constituído poder executivo, legislativo ou judicial, embora creia que, em muitos casos, os profissionais da política que nos têm parasitado, em virtude da sua muito exígua experiência do mundo real, não estejam equipados com os óculos conceptuais que lhes permitam entender o desenvolvimento no seu sentido lato.

É razoável admitir também que muitos políticos, tendo uma formação académica muito pouco diversificada e generalizada transversalmente à classe – Direito ou Economia, Economia ou Direito (… e um ou outro Engenheiro…) - como se apenas estas duas áreas do saber fossem passaporte para a tal carreira política. E se há uns que conseguem ter abrangência , interesse e sentido crítico suficientes para não descurarem o que não cabe nas suas áreas académicas respectivas, outros há – e creio serem a maioria (no sentido estatístico e no democrático) – que foram doutrinados pelas visões algo dogmáticas que o mundo académico tinha (e em alguns casos ainda tem), sobre os paradigmas de Economia e Direito. Como tal, é muito fácil encontrar gente para a qual a Dura lex sed lex romana é o melhor modelo judicial dum estado de direito, ou que o capitalismo keynesiano há-de resolver todos os males do mundo.

Em muitos casos, nessas academias, há um perpetuar de velhas ideias por parte de docentes avulso (docentes e não investigadores, leia-se!), que saltam constantemente entre as cátedras e as cadeiras dos poderes, indo e vindo do mundo político, financeiro e até sindical, órgãos decisores onde aplicam os mesmos dogmas que apenas ensinam (não investigam nem validam!), e onde obtêm resultados autossatisfatórios (não avaliam!). Isto não é académico, é pastoral!

Mesmo sem falar das academias, que – coitadas – têm as costas mais largas que o peito, há noutras barricadas outros exemplos acabados de dogmatismo, desde estalinistas enrustidos a trotskistas confusos, passando por socialistas apenas e só de nome e punho erguido e acabando em velhos (e novos!) do Restelo, saudosistas até à medula. O grande problema, mais uma vez, é o da reivindicação ideológica da realidade a partir de modelos socioeconómicos que são apenas teóricos – como o marxismo-leninismo – ou completamente descontextualizados – o estado de bem-estar social nórdico e a tentativa da sua colagem através de uma ou outra medida avulsa que não considera as diferenças (e que diferenças!) entre as realidades portuguesa e escandinava.

Em todos os casos, tratam-se de ideologias anacrónicas, como completamente anacrónico é, de resto, o capitalismo, principalmente nesta forma neo-liberal desregulada, em que um Estado ligado às máquinas deixa correr o marfim nos “mercados” para se agarrar à esperança da resolução das dívidas.

Não é de estranhar, portanto, que existam cúmulos de hipocrisia e cinismo por parte de políticos, como por exemplo o típico do economista comparando as contas do Estado às de uma família ou pequeno negócio, desconhecendo que o meu merceeiro, para competir com as grandes superfícies, vende as suas maçãs a menos um cêntimo que estas e, com o IVA e o IRC como estão, para poder sustentar a sua família, ter filhos a estudar, pagar a renda, água, luz, telefone, gás, gasóleo para trabalhar, despesas da pequena loja, não lhe sobra quase nada para aderir às novas regras de facturação. Ou o dono do café ali ao lado, que trabalha 16 horas por dia, pois com o IVA a 23%, não se pode dar ao “luxo” de contratar ajuda. Ambos percebem muito mais de economia que aqueles políticos e banqueiros. Ambos aguentam, aguentam… já o dono da pequena churrasqueira das redondezas não aguentou. Suicidou-se um dia destes.

O mundo real, que necessita de desenvolvimento, não se coaduna com a perspectiva estreita daqueles que não sabem o que é a política nem a democracia e que, no entanto, nos têm governado nas últimas décadas. Daqueles que aprenderam tudo o que julgam que precisam saber nas juventudes partidárias e nas tais academias que não investigam, não produzem, não validam nem avaliam. Daqueles produtos acabados do carreirismo que mancham o nome da política e infectam a democracia.

E eis-nos chegados a uma situação em que (aquele que deveria ser) o eleitor (mas não é porque no dia das eleições não vota), repete até à exaustão os soundbytes que apanha no ar, nas conversas de café, na comunicação social. “Que a política e os políticos isto e aquilo!” Como se política e políticos fossem a mesma coisa…

Ali ao lado, outro eleitor de facto não votou neste governo. Ninguém votou neste governo. A avaliar pelas pessoas que não votaram neste governo, até parece fraude eleitoral.

Outro eleitor ainda tem a digníssima coragem de assumir o voto neste tal governo, mas uma coragem ainda maior de se afirmar envergonhado. Porventura, dedicou o tempo que tinha para ler os programas eleitorais a ver a “Casa dos Segredos”. Mesmo que tivesse lido os programas, iria dar quase ao mesmo. A troika serve de desculpa para tudo, inclusivamente para um incumprimento de promessas eleitorais sem paralelo.

“Pois, mas é que os outros, os comunas e os janados, só sabem dizer mal, nunca fazem nenhuma proposta…”. E assim é, de facto. O programa do Goucha acaba, e está o eleitor distraído quando os noticiários abrem. Se não houver uma boa discussãozinha parlamentar, com um belo “tanso é a tua tia, pá”, um ministro a fazer corninhos, uma deputada a gritar qualquer coisa lá atrás, os coleguinhas a dizer “muito beeem, muito beeeem” nos momentos mais polémicos… se não houver picante, o tipo muda de canal. Que paga um dinheirão para ter 137 canais cheios de interesse!

Nisto a comunicação social não está isenta de culpas. Por mais que um órgão informativo se diga independente, nunca o é de facto. No limite, tem que pagar as despesas da sua actividade e os salários (ou avenças) aos “colaboradores” e administradores. Na generalidade está intimamente ligado a um qualquer grupo económico e tem que ter uma certa permeabilidade aos seus interesses. Na essência, tem que vender. Vender jornais, revistas, publicidade. Vender shares, minutos, numa guerra concorrencial que nunca mais acaba, onde um público pouco exigente não se satisfaz com notícias relevantes no contexto sociopolítico. Estas não vendem. As notícias “boas” é que vendem: o futebol, o crime, a polémica, o circo da actualidade plasmado em todas as vias possíveis e imaginárias, servido de preferência com sensacionalismo para colar mentes incautas ao ecrã. Vendem, vendem, vendem. Pouco informam, pouco cultivam.
 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Macaca Peculiar - parte V

A infidelidade como ruptura da relação estrita de monogamia é algo que normalmente associamos ao homem. Não é difícil estabelecer esta relação, dadas as diferenças de estratégias reprodutivas. Afinal, o homem produz um grande número de espermatozóides. É o grande fecundador.

Os benefícios de trair, para o homem, podem superar os riscos, através do aumento massivo da probabilidade de transmitir os seus genes para a geração seguinte. Contudo, não nos esqueçamos que a "outra" também é uma mulher normal, com as mesmas capacidades de manipular o momento em que escolhe engravidar. E o risco de ser apanhado, pondo em causa o investimento genético com a legítima parceira é enorme. Portanto, a traição masculina não é assim tão significativa tendo em conta a capacidade biológica que o homem realmente tem para trair. Há sempre uma medição inconsciente por parte do homem relativamente a esta lógica de risco/benefício. Freud chamar-lhe-ia superego, como um conjunto de atribuições de ordem moral que nos impedem de seguir a pulsão primordial. Eu substituiria a ordem moral pela capacidade inata de medir a optimização de um comportamento.

Também não nos podemos esquecer que a mulher também trai. Senão, não haveria sustentação para o conceito de "incerteza de paternidade".

Há uns anos atrás, tomei conhecimento de dados privilegiados dos quais não posso revelar a fonte sob pena de incorrer em grave incumprimento deontológico, mas que, na generalidade, posso descrever: um estudo genético sobre uma doença hereditária era levado a cabo com famílias de uma dada região, portadoras do gene responsável pela doença. O procedimento incluía, obviamente, análise do cariótipo e dos alelos em questão, e alguns resultados foram intrigantes: cerca de 9% das crianças eram apenas filhas da mãe (não foi preciso fazer teste específico para a paternidade, dado que o modelo de transmissão para o gene em causa permitia chegar a essa conclusão; as famílias em que isso se verificava foram retiradas do estudo com um agradecimento e uma desculpa qualquer, não tendo sido reveladas as causas).

O facto é que as mulheres são igualmente infiéis, mas tendem a esconde-lo mais que os homens. estes, em muitos casos, parecem ter um desmedido orgulho nas suas facadinhas. Portanto, a infidelidade masculina tende a ser sobrestimada e a feminina subestimada, o que nos dá a ideia que os homens é que são os grandes promíscuos.

Em termos evolutivos, a infidelidade feminina poderá estar relacionada a limitações na oferta masculina. O facto de ser a mulher a escolher não significa que ela consiga fazê-lo da melhor forma dadas as opções que se lhe afiguram. Aliás, é muito frequente em meios frequentados por mulheres ouvir dizer que há poucos homens de jeito e os que existem já estão ocupados.

No acto de escolha, a fêmea humana aprecia primeiro os bons genes: homens saudáveis e robustos, fortes caçadores do Paleolítico, capazes de dotar com maior probabilidade os seus filhos com os mesmos genes e capazes de lhes dar protecção e alimento. As mulheres estão geneticamente programadas para detectar e preferir, na esmagadora maioria das vezes, essas características, que nos homens se reflectem na alta estatura, massa muscular abundante e elevada simetria facial.

Acontece que, actualmente, existem dois factores que podem por em causa a relação risco/benefício desta escolha: por um lado, a caça simbólica actual já não exige a robustez física e a saúde que a caça efectiva exigia. A inteligência e a esperteza parecem ser mais eficazes que a robustez física na angariação de recursos, ou seja, os empregos intelectuais neste momento dão mais dinheiro e notoriedade que os braçais; por outro lado, o sistema de propriedades actual e a transmissão vertical destas por herança fez surgir homens mais ricos, capazes de garantir mais recursos à descendência. Neste contexto, a mulher muito provavelmente casar-se-à com o mais rico e/ou inteligente e terá filhos com o musculado, garantindo benefícios máximos pela escolha do melhor de dois mundos. Mas provavelmente poderá usar apenas um deles para as duas funções, e o inteligente parece, actualmente, ganhar a dianteira. Ou então tem a sorte de encontrar um que tenha todas as características. Seja de que forma for, qual a mulher que não quer um homem rico, inteligente e bonito?

domingo, 21 de novembro de 2010

A Macaca Peculiar - parte IV

O prazer sexual é talvez a característica mais comum entre homem e mulher, no âmbito das estratégias reprodutivas. A evolução do prazer sexual está ligada, necessariamente, à necessidade que a mulher tem de garantir um bom angariador de recursos e prestador de cuidados por perto, pois é mais um daqueles factores que incentiva a cópula, mesmo que não seja por razões reprodutivas. Por si só, o prazer sexual justifica a cópula, mas é muito conveniente à mulher, pois assim garante que o homem continue a tentar fertilizar o ovócito, pois desconhece o momento certo para o fazer.

Por esta altura, o leitor já deve estar mais que chocado com toda esta perspectiva meramente evolutiva do sexo. Claro que o prazer sexual, como todos os comportamentos sexuais humanos, tem que ser compreendido no âmbito da sexualidade, que os integra num vasto conjunto de interacções afectivas, emotivas, sensoriais, mentais, e de determinantes culturais e sociais. Não sou fundamentalista ao ponto de dizer que a sexualidade se esgota na reprodução. Antes pelo contrário, ultrapassa-a, e de que maneira. Isto já tinha começado a ser esclarecido no artigo "O Macaco Gay - parte I", quando descrevi o comportamento sexual do bonobo (Pan paniscus), tendo ficado patente que há muitas espécies nas quais o sexo não está sempre directamente relacionado com a transmissão de genes para as gerações seguintes.

Dizer que a sexualidade é fruto da evolução é diferente, portanto, que dizer que a sexualidade é exclusivamente orientada para a reprodução! Não troquemos a causa pelo efeito, que é aliás um erro em que frequentemente se cai quando se discute este tipo de conceitos. Sentimos prazer porque evoluímos nesse sentido, pois o prazer está relacionado com a estratégia reprodutiva humana. Não quero dizer com isto que devamos orientar o prazer sexual exclusivamente para a reprodução, coisa que algumas religiões, particularmente a católica, têm defendido ao preconizar a abstinência sexual.

Actualmente, a liberdade de escolha da mulher relativamente à concepção é, nas sociedades liberais, um direito fundamental. Os contraceptivos - principalmente a pílula - vieram ditar novas regras nas estratégias sexuais, e o que se tem visto é que quer mulheres, quer homens, têm investido noutros tipos de traços comportamentais. A mulher tem um papel mais determinante num mundo que era classicamente dominado por homens devido às imposições culturais da sociedade judaico-cristã. Podemos até dizer que a mulher de hoje, no mundo ocidental, se aproxima mais da mulher tribal ancestral em termos de poder dar largas à sua liberdade fora do círculo de controlo dos machos, pois nada nos leva a pensar que as tribos humanas primitivas fossem patriarcais. Hoje a mulher pode obter uma libertação relativa dos determinantes biológicos da sexualidade e exercer o seu direito de livre arbítrio. Talvez a incerteza da paternidade e a necessidade de manter o mesmo macho por perto tenham perdido alguma força nos comportamentos que favorecem a selecção natural, mas a mulher continua a dominar a estratégia sexual reprodutiva da sua espécie. O próprio homem terá adaptado ligeiramente as suas parcas estratégias. Preocupa-se mais com as questões higiénicas da sua imagem, com o parecer mais novo, mas principalmente com os aspectos mentais, dado que a intelectualidade é actualmente mais valorizada - é ela que dá melhores empregos com maiores rendimentos e notoriedade - e é hoje um caçador simbólico no seu emprego motivante, nos desportos que pratica, nos objectos de valor que colecciona. No entanto, tal como no Paleolítico, é o homem que continua a ser escolhido pela sua capacidade de transmitir bons genes, angariar recursos e prestar cuidados à prole, e é a mulher que continua a escolher, embora dê muitas vezes a ilusão da capacidade de escolha ao homem. E continuamos a apaixonar-nos. E a manter relacionamentos tendencialmente monogâmicos, e a casar e a ter filhos.

Hoje, nas sociedades liberais, podemos fazer o que quisermos com os nossos corpos. Mas isso não invalida que não sejamos fruto da nossa evolução, o que significa que continua a haver sempre uma maior probabilidade de expressar os comportamentos na razão em que eles evoluíram.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A Macaca Peculiar - parte III

As diferenças entre macho e fêmea na espécie humana não se ficam pela diversidade de estratégias de produção de gâmetas e pela adopção de sinais visuais de substituição para a excitabilidade sexual. Há muitas mais! Ainda sem entrar na melindrosa análise comportamental, continuemos a apreciar as particularidades da fêmea, agora sob o ponto de vista fisiológico: ao contrário dos outros primatas, da generalidade dos mamíferos e de muitos outros seres vivos, a mulher não tem uma época reprodutiva específica. Não há uma altura do ano em que os Homo sapiens acasalem e tenham ninhadas. Isto pode acontecer seja Verão ou Inverno, faça calor ou frio.

Na altura do "cio", as outras primatas encontram-se disponíveis para o acasalamento, sinalizando ao macho a altura da ovulação através da secreção de feromonas, do ruborescimento e entumescimento da vulva e tecidos adjacentes e de determinados comportamentos que dão a entender que o período fértil está a acontecer. A fêmea humana, pelo contrário, é capaz de esconder completamente o período da sua ovulação, sendo impossível ao macho detectar quando é a altura certa para depositar a sua "semente".

No fundo, o que a mulher pretende com estas características é explorar um dos maiores temores do macho: a incerteza de paternidade. Há um velho ditado português que resume magistralmente este conceito: "filhos da minha filha, meus netos são; filhos do meu filho, serão ou não". É a sabedoria popular de mão dada com a Sociobiologia!

De facto, o comportamento reprodutivo dos machos de muitas espécies evoluiu no sentido de diminuir ao máximo a incerteza de paternidade, e no homem, não é diferente. Principalmente se atendermos ao facto de que nos humanos, o homem assume uma parte cabal nos cuidados parentais e na angariação de recursos para os filhos. Este grande investimento só faz sentido se for feito nos próprios genes, pelo que se compreende que uma das maiores angústias de um homem é não ter a certeza de ser pai dos seus filhos e uma das maiores humilhações, senão a maior, é descobri-lo.

Daqui se depreende que todas estas características da mulher contribuem para manter a monogamia como estratégia preferencial, não obstante o macho ter uma tendência meramente fisiológica para a poliginia. Ao esconder o período fértil e a ovulação e ao permitir a reprodução ao longo de todo o ano, a fêmea "prende" um dado macho, que terá que se manter por perto para assegurar que terá sucesso numa das tentativas de fertilização, ao mesmo tempo que impede que outro o faça por ele quando não estiver a ver.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A Macaca Peculiar - parte II

Ao longo da nossa evolução, a fêmea humana foi-se dotando dos mecanismos que a tornam no animal mais dissimulado, enganador e maquiavélico de todos.

Apelo às mulheres que me lêem, que se refreiem de me esganar na rua e tentem analisar até ao fim esta série de artigos, pois como sabem, não estou aqui a fazer a reivindicação ideológica do machismo nem de coisa nenhuma, mas antes a esclarecer com conceitos biológicos o nosso comportamento. Doa a quem doer, a Biologia é a melhor forma de nos conhecermos a nós mesmos, mesmo que isso nos force a tomar consciência das nossas fraquezas e limitações. É, quanto a mim, o mais seguro passo para o desenvolvimento da tolerância e respeito mútuos.

Voltando à carga, algumas das alterações mais visíveis na mulher tiveram origem quando nos pusemos de pé e passámos a andar em duas patas (que, como já expliquei num artigo anterior, poderá ter acontecido porque precisávamos dos dois braços para transportar alimentos e crianças, ao contrário do que advogam as perspectivas clássicas, que era para ver por cima das ervas altas da savana). O facto é que, quando nos pusemos de pé, passámos a ver-nos de uma forma completamente diferente da dos nossos ancestrais: começámos a olhar-nos de frente. Isto alterou fortemente os sinais visuais que levam á cópula. Passo a esclarecer: os símios arborícolas, dos quais descendemos tal como os nossos familiares chimpanzés, gorilas e orangotangos, eram quadrúpedes e, como tal, durante o período reprodutivo, o macho abordava a fêmea por trás, pois é a forma natural dos quadrúpedes estabelecerem o contacto genital. Nestes animais, tal como nos quadrúpedes actuais, as nádegas e a vulva estão expostas, completa ou parcialmente visíveis, e servem de identificador visual para a excitabilidade do macho, incentivando o início da cópula. Acontece que, quando os nossos ancestrais evoluíram para a postura erecta e a locomoção bípede, a vulva passou a localizar-se em baixo e não atrás, e por isso escondida, e a própria posição da cópula passou a ser predominantemente frontal, perdendo as nádegas uma relativa importância de sinalização.

Em contrapartida, a fêmea humana sofreu uma evolução no sentido de desenvolver sinais de substituição dos primordiais: lábios carnudos a rodear a boca e mamas! Comparemos: os símios actuais que evoluíram a partir dos mesmos ancestrais que nós, ou seja, os chimpanzés, gorilas, orangotangos, apresentam todos lábios finos e as fêmeas não têm mamas como as nossas. Apenas glândulas mamárias que secretam e armazenam leite quando necessário. As mamas humanas são diferentes, pois a rodear as glândulas mamárias existe tecido adiposo que não tem qualquer função fisiológica senão a de dar a conhecida forma redonda. As mamas têm, assim, uma função meramente estética: são nádegas de substituição! Tal como os lábios são vulvas de substituição também.

Entendido isto, não parece difícil compreender a fixação do macho humano pelas nádegas, mamas e por lábios femininos carnudos. São as principais características físicas que os homens valorizam numa mulher no momento de prenderem a sua atenção, e são os principais alvos de cirurgia estética: botox, implantes mamários, remodelação dos glúteos. Tudo para que a fêmea se torne mais apetecível aos olhos do macho.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A Macaca Peculiar - parte I

Se eu vos perguntasse qual a característica que mais nos distingue dos outros animais, de certeza que as respostas iriam andar à volta do raciocínio, consciência, inteligência, cultura, pensamento, emoções, sentimentos...

Mas então, se eu ao longo de todos estes artigos, tenho procurado desmistificar o comportamento humano, por que carga de água haveria de perguntar algo com respostas aparentemente tão óbvias e consensuais? Pela simples razão de aquilo que tomamos como certo ser o resultado de séculos de pensamento antropocêntrico - ah, somos maravilhosos seres pensantes e, por isso, superiores a todas as outras manifestações de vida - e de crenças teocêntricas - oh, somos a criação pródiga de uma entidade superior, feitos à sua semelhança e, por isso, superiores a todas as outras manifestações de vida.

No entanto, somos animais. Sujeitos como eles às mesmas forças evolutivas de selecção natural, o que desmente a perspectiva antropocêntrica, e essa evolução baseia-se nos paradigmas delineados por Darwin e na sua sustentação pela Biologia Molecular, Genética, Paleontologia..., ou seja, séculos de constantes teorias validadas experimentalmente e em constante evolução, contrariando sempre e cada vez mais, as supostas verdades absolutas do pensamento religioso, o que desmonta a perspectiva teocêntrica.

Se as capacidades reflexivas e meta-reflexivas são realmente um grande factor de distinção do Homo sapiens relativamente aos outros animais, aquilo que realmente mais nos diferencia é a reprodução, nomeadamente a enorme distinção de estratégias entre os sexos e as peculiaridades morfológicas, fisiológicas e comportamentais da fêmea do H. sapiens, comummente designada mulher.

Comecemos pelas características fisiológicas, que são as mais simples de compreender: o homem consegue produzir milhões de espermatozóides por dia. Ao todo produz biliões desde a puberdade até à morte. Mesmo em idades muito avançadas a produção, apesar de diminuir seriamente, nunca pára, pelo que não existe uma verdadeira andropausa. Já a mulher produz um limitadíssimo número de ovócitos desde a puberdade até à menopausa, que acontece por volta dos 40-50 anos. E mais: ao contrário do homem, que tem uma produção constante, a mulher apenas produz uma célula reprodutiva a cada 28 dias em média. Daqui se depreende que o homem investe na quantidade - o que é muito comum em muitas espécies - e a mulher na qualidade - o que também não deixa de ser usual em muitos animais. O que não é muito normal é esta enorme disparidade de estratégias reprodutivas se encontrar na mesma espécie, pois a lógica aponta para que, se é necessária eficiência reprodutiva, o macho e a fêmea têm que concertar estratégias ao longo da sua evolução.

Dadas as diferenças, seria de esperar que o homem fosse um grande fecundador, um animal programado para inseminar um grande número de mulheres num curto espaço de tempo. Só que isto, apesar de ser possível, na realidade não acontece. E não é por causa da ética, nem da moral ou das ideias religiosas. É porque a mulher domina completamente as estratégias reprodutivas da sua espécie.

domingo, 14 de novembro de 2010

Compreender Sociobiologia

Ao discutir a base biológica dos comportamentos, muitas vezes sou confrontado pelo meu interlocutor com exemplos soltos sobre um amigo, conhecido, familiar ou até figura pública, que não segue o padrão comportamental que eu descrevo, e na maior parte dos casos, isso é suficiente para que o interlocutor tome por inválida a teoria subjacente. Como isto já me aconteceu várias vezes e com pessoas diferentes, começo a pensar que é uma dificuldade recorrente na divulgação do pensamento sociobiológico.

Acontece que somos muito facilmente dominados pela lógica indutiva. Tomamos uma explicação como certa se houver um pequeno número de casos que a comprovem, assim como refutamos facilmente uma teoria se houver um pequeno número de casos que se lhe oponham. Como se não bastasse sermos influenciados pelas perspectivas antropocêntricas e teocêntricas, ainda temos estas dificuldades filosóficas na explicação biológica do comportamento.

No entanto, estes entraves são fáceis de debelar. Temos é que ter alguma paciência. Podemos começar por explicar que as teorias do comportamento não são absolutamente directivas. Não são como as leis da Física, não têm a mesma consistência hermética na explicação dos fenómenos. O que as teorias do comportamento nos dizem é que, em dado ambiente, há uma maior probabilidade de se expressar um dado traço comportamental. A Sociobiologia não nos diz, portanto, que agimos todos da mesma forma porque os nossos genes nos mandam. Usa, antes, o maior laboratório experimental da natureza - a evolução pela selecção natural e sexual - para explicar comportamentos sociais animais e humanos.

O facto é que os animais (o que nos inclui), evoluíram da forma que evoluíram na interdependência da expressão de comportamentos com maior frequência num dado ambiente, o que nos dá uma aproximação probabilística de expressarem os mesmos comportamentos no presente e no mesmo enquadramento ambiental. Trata-se, portanto, de uma análise complexa muito semelhante, por exemplo, à abordagem epidemiológica, com a agravante de contar com muitos mais factores que contribuem para diminuir a previsibilidade de ocorrer um dado comportamento.

O grande desafio da Biologia do Comportamento Humano é, na minha opinião, estudar a mudança da variável ambiental no comportamento, visto que já pouco resta do ambiente original onde evoluímos - as aldeias tribais. O facto de vivermos actualmente em ambientes muito diferentes dos primórdios, sem termos tido uma evolução genética (10.000 anos é muito pouco, quase nada em termos evolutivos), condiciona necessariamente a probabilidade de expressarmos um dado comportamento em analogia com o traço ancestral.

Se já está mais que provado que os genes têm um papel fundamental no comportamento humano, há ainda muito para desbravar no que diz respeito à sua interacção com estes ambientes urbanos modernos.

Tudo aponta, no entanto, para que os mesmos comportamentos que tínhamos no Paleolítico, se verifiquem na actualidade, se bem que com um certo grau de adaptabilidade a novas realidades.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

As dúvidas do macaco

No post anterior, O Macaco Gay - parte III - referi que "o apoio familiar potenciaca a transmissão de genes de parentes próximos", como se fosse a coisa mais natural de se dizer. No entanto, lembrei-me de que quem me lê não tem exactamente o mesmo background teórico que eu e que, muito provavelmente, não iria perceber o porquê do fenómeno descrito.

A ideia que descrevi deu azo a uma das maiores discussões da Biologia do Comportamento. Lembram-se de há uns posts atrás eu ter falado da safada da gazela de Thompson, que se põe aos saltos como uma maluca para dizer ao leão que é saudável e para ele ir comer as outras? Antes, os etólogos (cientistas que estudam a evolução do comportamento animal) pensavam que a gazela fazia isso para chamar a si a atenção do leão e sinalizar às outras para fugirem. Era o conceito de selecção de grupo, em que um indivíduo abdicava da possibilidade de se reproduzir (sim, se o leão a comesse, ela não teria filhos), em benefício das outras gazelas. Claro que, depois de muita porrada académica e muita agressão teórica (os cientistas são muito maus uns para os outros em geral), essa ideia foi abandonada em detrimento da selecção individual, que advoga que os nossos comportamentos são direccionados para o auto-favorecimento, ou melhor, para o aumento da probabilidade de passarmos os nossos próprios genes para a geração seguinte (a brilhante teoria do "gene egoísta" do Richard Dawkins), e, quando muito, da selecção de parentesco, que nos diz que um indivíduo pode abdicar da sua reprodução a favor de outro que lhe seja geneticamente muito próximo, como um parente directo, pois nesse caso, há uma fracção dos genes do indivíduo que terão maior probabilidade de passar para as gerações seguintes. Isto foi pela primeira vez descrito nos himenópteros eussociais (leia-se vespas, abelhas e formigas), em que as obreiras evoluíram como estéreis numa sociedade organizada, pois isso favorece a perpetuação de mais genes idênticos aos seus por linhagem da rainha do que se fossem elas próprias a reproduzirem-se. Nos humanos temos o caso típico da tia solteira, que como não se pôde reproduzir, orienta os seus recursos (atenção, carinho, comida, dinheiro), para os sobrinhos, pois assim aumenta a hipótese de ver uma parte significativa dos seus genes chegar às gerações seguintes. No fundo, é a bela ideia da bondade natural humana completamente achincalhada por factos científicos, ou como somos todos uma cambada de egoístas sem escrúpulos, mesmo quando estamos a ajudar alguém, e a culpa é dos genes.

Contextualizando no post anterior, como evoluímos de macaquinhos mais ou menos solitários a apanhar frutos em cima das árvores, para humanos tribais com famílias alargadas e grande divisão de tarefas, é possível que o grande apoio familiar tenha aliviado um bocadinho a pressão de nos reproduzirmos, pois haveria provavelmente outra pessoa proximamente aparentada que o faria por nós... eh... desculpem, pelos nossos genes. Daí, a probabilidade de haver expressão de comportamento homossexual pode ter aumentado. É apenas uma conjectura, mas que pode ajudar a explicar mais algumas coisas, como por exemplo o facto de algumas pessoas não quererem ter filhos e efectivamente viverem toda a vida sem se arrependerem de tal.

Posso estar errado, sim. Mas é, por exemplo, constatável que populações economicamente menos favorecidas têm tipicamente maior taxa de natalidade. Será apenas do nível socioeconómico ou será que a limitação de recursos e apoios familiares potencia a necessidade urgente de deixarmos genes na geração seguinte? O "cada um por si"? É que em Sociobiologia, as estratégias reprodutivas dependem directamente da disponibilidade de recursos. Pensem nisto.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Macaco Gay - parte III

Tal como para a violência, a pressão do ambiente artificial urbano pode contribuir para o aumento da frequência dos comportamentos homossexuais. Mas aumento em relação a quê? Às sociedades tribais ancestrais! É possível que houvesse homossexualidade desde os primórdios da humanidade, da mesma forma que nada indica que não existissem humanos violentos no Plistocénico, ou outros que se divertissem a fazer o pino ou a bater com paus em troncos ocos ou a pintar cavernas ou a correr como malucos sem precisarem de ir a lado nenhum. E tudo isto advém, directamente, da nossa organização social complexa. O facto de vivermos em grupos multifamiliares alargados levou a que houvesse uma grande divisão de tarefas entre homens, mulheres, crianças e velhos. Já não era necessário cada indivíduo suprir todas as suas próprias necessidades e passámos a contar com um mecanismo eficiente na poupança de tempo e energia: a sociedade humana.

De repente vimos-nos com uma disponibilidade enorme de tempo e energia que não tínhamos que dedicar à sobrevivência e reprodução, e começámos a usa-los noutras coisas. A arte, por exemplo, vem daí.

Possivelmente, o excesso de tempo e o facto de que o apoio familiar potenciava a transmissão de genes de parentes próximos, entre muitas outras coisas, pode ter levado a que alguns indivíduos com pulsão sexual tendencialmente ambígua ou homo-orientada se tivessem aliviado um bocadinho da obrigação da reprodução e se tivessem orientado para pessoas do mesmo sexo. Agora, como é que este comportamento evoluiu? Não faço ideia!

No meio de todas estas conjecturas, talvez o mais difícil de explicar seja o porquê de muitos homossexuais referirem que sempre se sentiram assim desde que se lembram, e que provavelmente já nasceram assim. Talvez resulte, quem sabe, de uma modelação hormonal do desenvolvimento neurológico in utero, talvez seja mesmo uma expressão de genes (e como tal, um produto da evolução), talvez a educação e as influências ambientais possam ter um papel preponderante desde muito cedo, talvez seja tudo isto e mais alguma coisa. Talvez...

O facto é que a homossexualidade existe, tal como existem a bissexualidade, a transsexualidade e a assexualidade, e o mais importante disto tudo é que se trata de pessoas que merecem toda a tolerância, compreensão, abertura de espírito e, principalmente, toda a liberdade de manifestar os seus sentimentos.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O Macaco Gay - parte II

Estando esclarecidas as verdadeiras razões do comportamento homossexual do bonobo, os reivindicadores ideológicos viraram-se para outros bichos, como por exemplo, os pinguins. Acontece, porém, que todos os animais aos quais se tentou imputar a homossexualidade como comportamento natural, eram animais em cativeiro, e não é possível extrapolar comportamentos em cativeiro para o ambiente natural, dado que o ambiente é uma variável preponderante no comportamento.

Neste ponto, tenho uma palavra a dizer: nós, humanos, evoluímos durante milhões de anos em grupos multifamiliares tribais de cerca de 200 indivíduos, em aldeias onde toda a gente se conhecia. Apenas há 10000 anos, com o advento da agricultura, é que começaram a surgir as primeiras civilizações urbanas, nas quais vive actualmente a maior parte da humanidade. Geneticamente somos, portanto, caçadores-colectores a viver num ambiente radicalmente diferente daquele onde evoluímos. Diria que vivemos num cativeiro urbano, com pressões enormes provocadas pela presença de estranhos - algo a que não nos adaptámos evolutivamente - e até pela incapacidade de satisfazer o nosso primordial "instinto" de caça. Isto provoca, necessariamente, o aumento da probabilidade de surgirem perversões nos comportamentos naturais, ou até traços comportamentais completamente desadequados às situações. A violência, por exemplo, é um desses comportamentos que não encontram explicação na teoria de optimização comportamental, que nos diz que a probabilidade de expressar um comportamento depende da relação entre riscos e benefícios desse mesmo comportamento, e os comportamentos de confronto violento acarretam sempre mais riscos que benefícios para o indivíduo. O risco de ficar gravemente ferido ou até morrer, ou o risco de ser ostracizado pelos pares deviam ponderar na decisão a tomar. Como tal, os comportamentos violentos são raríssimos na natureza e são evitados através da agressividade, que muitas vezes se reflecte numa demonstração de força ou numa encenação. O mostrar os dentes, o rosnar, o abrir as asas para parecer maior, o simular uma carga (que é típico dos elefantes), são exemplos de comportamentos agressivos que muitos animais demonstram para fazer valer os seus interesses territoriais, alimentares ou de parceiros reprodutores. É uma espécie de "não te metas comigo que eu sou mau e maior e mais forte que tu". E resulta na esmagadora maioria das vezes. Nós também o fazemos, quando assumimos uma pose hirta, um ar duro, uma expressão facial carregada. Quando discutimos e levantamos a voz, ou até mesmo quando damos um empurrão ou um tabefe, mas não nos andamos a ferir gravemente ou a matar-nos uns aos outros, se bem que em certas franjas marginalizadas da sociedade isso aconteça com relativa frequência e resulte, principalmente, do acumular de pressões urbanas de que falei anteriormente, o que vai causar uma sensação constante de medo, perseguição, inadaptação social e o sentimento de não ter nada a perder. Não é por acaso que os comportamentos violentos surjam muito mais frequentemente em grandes cidades onde a pressão é implacável e os contrastes sociais são enormes. Rio de Janeiro, São Paulo, Cidade do México, Los Angeles, Nova Iorque, Lagos, Joanesburgo...

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O Macaco Gay - parte I

A explicação dos comportamentos homossexuais humanos é um terreno extremamente pantanoso para os biólogos do comportamento. Isto porque partimos muitas vezes do princípio que todo o nosso comportamento visa maximizar a probabilidade de passarmos os nossos genes para a geração seguinte. Então, como é que nós, que segundo Dawkins, somos não mais que veículos efémeros para a perpetuação dos genes, assumimos comportamentos completamente desfavoráveis a esse princípio? O que poderia ser paradoxal do ponto de vista estritamente sociobiológico pode deixar de o ser quando entendemos o comportamento humano num modelo complexo multifactorial, extremamente difícil de relacionar e explicar.

Os geneticistas andam apostados, no entanto, na procura de "genes da homossexualidade" que nos predisponham, em dados ambientes favoráveis, a revelar esses traços comportamentais de anulação ou perversão do impulso reprodutivo. Parece ser uma abordagem válida, pois parte-se do princípio que os homossexuais são uma minoria, o que justifica o facto desses supostos genes terem resistido às pressões de selecção natural, pois teriam tido, ao longo da evolução, uma expressão mínima, que no entanto, em algumas circunstâncias, poderia ter sido potenciada pela aquisição de favores ou relacionamentos hierárquicos. Muito complexo.

Depois, temos as perspectivas clássicas da Etologia, fundadas principalmente no estudo do comportamento de símios. Primeiro, foi a constatação de comportamentos homossexuais no chimpanzé pigmeu, ou bonobo, muito convenientemente taxonomado Pan paniscus. Estes simpáticos símios, em tudo semelhantes a um chimpanzé comum, mas mais pequenos, usam o sexo como forma de recompensa social e como modelador da força das relações de hierarquia no seio do grupo, sendo que ocasionalmente praticam coito homossexual para os mesmos propósitos. Portanto, e como os etologistas ajudaram sobremaneira a clarificar, existem espécies nas quais o sexo não está exclusivamente relacionado com a reprodução, servindo também como uma ferramenta de mediação da interacção social. Se à interacção social juntarmos prazer consciente e afecto, temos os humanos! Aliás, o P. paniscus não é mais nem menos que a espécie que mais próxima está geneticamente de nós, o que pode ser uma pista para desvendar este mistério.

Claro que no meio disto tudo, houve grupos, principalmente de defensores de direitos dos homossexuais, que descontextualizaram as descobertas, fazendo a reivindicação ideológica da naturalidade do comportamento homossexual do macaco e generalizando. Uma espécie de "se os animaizinhos também o fazem, é porque é natural e não podemos ser condenados por isso". Verdade na parte do "não podemos ser condenados por isso", omisso no "é natural", pois não estão descritos os motivos e mentira no "os animaizinhos também o fazem", porque não são todos, nem muitos, mas apenas alguns poucos e em determinadas condições.

(Nota: o título desta série de posts, "O Macaco Gay", é uma alusão ao livro do Desmond Morris sobre comportamento humano: The Naked Ape, O Macaco Nu.)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ela move-se e nós somos primos do macaco

Há umas semanas atrás, um aluno daqueles como já não há muitos,veio-me pedir umas sugestões para um ciclo de debates multitemático, cujo tema era um muito pouco explícito "genes e agressividade". Satisfeito da vida por pensar que havia um interesse crescente sobre a base genética do comportamento, lá o fui orientando como pude, levando-o pelos meandros da evolução do comportamento social animal e humano, hormonas, neurotransmissores, selecção natural, princípios da optimização comportamental e o verdadeiro significado da agressividade, como um comportamento natural, extremamente útil pelo seu papel poupador de energia e evitador da violência e de confrontos agonísticos extremos, com mortos e feridos, que só têm desvantagens para qualquer um dos intervenientes. Bibliografei-o com passagens de teses de mestrado e livros de linguagem clara e simples sobre o espaço interpessoal, o território, a linguagem corporal, e observei-o encantado por conhecer uma nova realidade e poder atirar-se às feras devidamente documentado e plenamente consciente.

Ontem voltou com um misto de conformação e revolta. É que aqueles filhos de... Rousseau dos promotores e moderadores do debate achavam que a agressividade é uma coisa muito má que devia ser banida da sociedade e que os mauzões agressivos tinham um gene mau que os fazia assim. Como tal, os argumentos do meu pobre pupilo foram deitados por terra por um pressuposto falso, uma inconsciente e inocente suposição tácita tomada como verdade absoluta, e de nada lhe valeu toda a documentação que levava nem a sua corajosa capacidade de argumentação.

Não me restou muito mais que deixá-lo orgulhoso da sua derrota, comparando-o a um Galileu em pleno auto-de-fé, ou a um Darwin achincalhado pelos fixistas, e encorajei-o a continuar os seus estudos.

De facto, a história da ciência é pródiga neste tipo de acontecimentos. Aparece alguém a explicar a realidade de uma forma diferente e é logo vilipendiado por todos os outros, que se restringem ao conforto da teoria ortodoxa ou do dogma. Esses casos são tão mais graves quanto mais se avança nos paradigmas científicos. É que nem Galileu possuía modelos físicos e matemáticos pré-existentes que suportassem a explicação dos seus achados, nem Darwin tinha consigo a biologia molecular e a genética. Mas "no entanto ela move-se" e nós somos primos do macaco.

Galileu e Darwin tiveram que lutar contra dogmas. Hoje é epistemologicamente correcto dizer que nas ciências não existem verdades absolutas, ou como Kuhn explica, a ciência constrói-se com uma sucessão de paradigmas que explicam a realidade de forma sucessivamente diferente, e como tal, nenhum deles tem carácter definitivo. Daqui se depreende que a luta actual da ciência já não é contra a religião mas sim contra si própria, usando para tal essa coisa do método científico (que não é a sucessão hermética de acontecimentos que se aprendem nas aulas laboratoriais), e principalmente boas bases teóricas, trabalho experimental bem desenhado e resistente a erros e muita estatística que nos permita ter segurança nas associações que estão por detrás das hipóteses. Depois é só informar sobre as descobertas (papers, teses, livros, congressos, workshops...), aplicá-las na prática e seguir sistematicamente a sua aplicabilidade.

Se muitos cientistas claudicaram na apresentação de novos conhecimentos, o que o meu aluno foi defender não era, no entanto, nada de novo, mas sim algo teoricamente e experimentalmente por demais comprovado, e para o explicar, teve que se debater com algo muito mais perigoso, melindroso e arrogante que os dogmas: a ignorância. E perdeu...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Macaco Hidráulico II

Porque raio é que falamos? Dizem vocês, incautos leitores, que é para comunicar. Mas sintaticamente eu não perguntei "para que", mas sim "porque". É das coisas mais antropocêntricas que temos, isto de trocar a causa pelo efeito. Andamos de pé para ver sobre as ervas altas da savana, senão éramos comidos? Não. Andamos de pé porque a selecção natural foi favorecendo aqueles que conseguiam transportar uma grande quantidade de alimentos, e para isso, precisámos de começar a usar os braços. Isto porque, no seguimento do que eu já tinha dito, não nos tornámos bípedes na savana. Já o éramos antes de cairmos lá por um triste acaso do destino.

A fala é algo que temos por adquirido, mas que demorou bastante tempo a evoluir. Marc Verhaegen é um investigador da evolução da linguagem e é da opinião que começámos a falar muito por culpa do nosso sistema respiratório ter evoluído diferencialmente dos restantes símios. Isto porque passámos pela tal fase aquática da nossa evolução. A preparação para o mergulho implica, obrigatoriamente, o fecho completo das vias respiratórias superiores. Algo que os chimpanzés não conseguem fazer, e por isso têm medo da água, pois afogam-se facilmente. O controlo voluntário da abertura e fecho dessas vias é algo que já existe nos recém-nascidos humanos. Daí ser tão normal ver um bebé a nadar, completamente à vontade.

Quando vivíamos perto de grandes massas de água e tivemos que nos aventurar na pesca e na recolha de moluscos e crustáceos, tivemos que ir cada vez mais longe. Aqueles que conseguiam um melhor fecho das vias respiratórias, foram favorecidos pela selecção natural e passaram os seus genes para a geração seguinte. Se consegues mais alimentos sobrevives mais tempo e tens maior probabilidade de te reproduzires. Isto é a evolução explicada de uma forma simples.

A questão é que o controlo voluntário das vias respiratórias trouxe algo de útil, que foi a capacidade de articular sons. Junta-se o útil ao agradável, agita-se bem, e temos um ser com capacidades vitais de comunicação, que nos vieram a ser extremamente úteis na nossa organização social, como por exemplo na caça cooperativa que viemos a desenvolver na savana. Aqui, nós quando lá aterrámos, já éramos um animal com capacidades de adaptação acima da média e não demorou muito até crescermos e nos tornarmos cosmopolitas.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Macaco Hidráulico I

Sir Alistar Hardy lia descansadamente um livro quando tropeçou numa estranha constatação: porque é que os humanos possuem uma camada de gordura mais semelhante aos mamíferos aquáticos do que aos restantes símios?

Se somos filogeneticamente mais próximos (forma dos Biólogos dizerem que temos mais genes em comum devido a relações evolutivas de proximidade), dos outros símios do que da foca, da morsa ou do golfinho, não era de esperar termos tantas características em comum. Que não se ficam, aliás, pela banha. Há a questão da ausência de pelo exuberante, por exemplo.

Hardy ficou fascinado por estas questões e começou a investigar um conjunto de características, tendo chegado, em 1930, a uma hipótese: grupos de nossos ancestrais, numa dada altura da nossa evolução, terão sido forçados, por competição, a descer das árvores e a procurar alimento em zonas de águas baixas, com abundância de alimentos como peixes, crustáceos e moluscos e sem competição de outros mamíferos. Sir Hardy, precavendo-se contra a inaceitação desta hipótese, esperou 30 anos até a publicar, tendo reunido bastante mais informações nesse período de tempo. Mesmo assim, a sua teoria foi completamente desvalorizada e ridicularizada pela restante comunidade científica. Uns anos depois, em 1963, Desmond Morris repesca esta teoria e desenvolve-a na sua revolucionária obra "The Naked Ape".

A grande polémica desta hipótese, conhecida como Teoria do Macaco Aquático (AAC - Aquatic Ape Theory), reside no facto de ir contra as perspectivas clássicas da evolução humana, que apontam uma passagem mais directa das árvores para a savana, o que explica o bipedismo e a posição erecta, bem como a caça cooperativa, mas falha em explicar as características morfológicas tão distintas do humano. Claro que os antropólogos clássicos, com anos e anos de pesquisa e publicações dedicadas à hominização naqueles moldes, nunca podiam aceitar uma hipótese que deitava por terra todo o paradigma que eles tinham afirmado.

Mas a ciência faz-se essencialmente de factos, e a evolução tem a paleontologia por trás. -Então é fácil: peguem-se nos fósseis - dizem vocês! Seria fácil, se os houvesse! Há um período desde há 7 até 4 Milhões de anos que não tem grande registo geológico na área em que a hominização teria ocorrido, ou seja, na região hoje conhecida como dos Grandes Lagos, na África Oriental. Este período, conhecido como Lacuna Pliocénica, é muito ambíguo e não se sabe muito bem o que se terá passado. Só sabemos que entrámos macacos na Lacuna e saímos hominídeos. Como tal, a Paleontologia não corrobora uma ou outra hipótese.

Mas vamos ao que interessa, ou seja, ao desvendar da montanha de características que nos indicam uma provável evolução em meio aquático! Deixo-vos aqui uma para pensarem e nos próximos posts falamos um pouco mais:

Somos o único mamífero terrestre com o chamado "reflexo do mergulho". Quando entramos na água, fechamos automaticamente as vias aéreas superiores e conseguimos encontrar imediatamente o equilíbrio dentro de água. Até um recém nascido é capaz de fazer isto, e de,inclusivamente, nadar! Se atirarmos um chimpanzé à agua, ele entra automaticamente em pânico, esbraceja, grita e afoga-se. Por isso os chimpanzés têm uma fobia enorme à agua! Não são capazes de fechar as vias aéreas nem de se orientarem. Cumulativamente, temos uma capacidade de apneia bastante interessante, que até numa pessoa normal, com algum treino, pode chegar aos 3 minutos!

Os mistérios da nossa proveniência ainda estão por ser desvendados, e acredito que a AAT é o melhor modelo de explicação da evolução humana. Esperem por cenas dos próximos capítulos!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Oremos, parte III

O altruísmo humano é tão natural como um peixe a andar de bicicleta. Desde o início dos tempos que a selecção natural privilegia a mentira, o engano, a ilusão. Daí que seja tão difícil, utópico até, criar sociedades "perfeitas", em que vivamos em plena harmonia uns com os outros, como seriam os casos do Socialismo ou do Cristianismo. Somos, no fundo, uma cambada de sacanas, pois a pressão que os nossos genes exercem em nós para que os passemos à geração seguinte assim o modela. Para os nossos genes, há vantagens claras no engano e na traição (teoria do gene egoísta do Richard Dawkins).

Engane-se quem pense que isto é exclusivo dos humanos. Todo o mamífero que se digne tem o seu quê de comportamento egoísta. Os desgraçados dos naturalistas antigos é que ou não compreendiam esses comportamentos ou confundiam-nos com altruísmo. Vejamos a gazela de Thompson, por exemplo: este gracioso animal (imaginem que estão a ver o BBC vida selvagem), pasta em grupos alargados. Quando uma gazela avista por perto um grande predador da savana, como um leão, começa aos saltos como se não houvesse amanhã! Este comportamento (stotting), intrigou os cientistas e, inspirados pelas ideias antropocêntricas, positivistas, russeauianas, atribuíram àquele salto com as quatro patas no ar as características mais nobres possíveis - avisar as outras pobres gazelas para fugirem que anda um leão à solta. Ora mais altruísta que isto não pode haver! A nobre e briosa gazela chama a si todas as atenções, tornando-se um alvo fácil e dando a salvação a todas as outras. Aqui reside a beleza da natureza e a elevação de condutas do reino animal! Jesus Cristo na forma de gazela!

Claro que, quando a genética começou a tomar conta de tudo e quando começámos a olhar para a natureza do ponto de vista da teoria da optimização (todo o comportamento se mede numa relação de riscos/benefícios desse mesmo comportamento), e quando constatámos que o leão nem sequer ia atrás da gazela aos saltos mas sim das outras que começavam a fugir, vimos que a realidade não é tão cor-de-rosinha! Afinal a cabra da gazela, ao fazer o stotting, está a dizer ao leão: "vês como eu sou saudável e robusta? Vês como salto tão alto e tão bem? Não tens hipótese comigo, nunca me vais apanhar. Caça mas é as outras, as crias, os velhos, os doentes, porque assim não vais ter que correr tanto!"

Que isto sirva de lição para os meus leitores: quando virem alguém a praticar "o bem", desconfiem sempre. Essa pessoa ou é burra como um calhau ou anda a tramar alguma.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

De onde vêm os bebés

Esta questão atrapalha sempre qualquer pai e/ou mãe, quando o pirralho, armado em gente importante com a mania que quer saber tudo, faz perguntas sobre a origem da vida e o porquê da barriga da vizinha do lado...

Eu, se fosse (ou algum dia viesse a ser) pai, resolvia essa questão com um tabefe bem aplicado e com um providencial "quando chegares ao liceu fala com os teus colegas". Cabe lá agora aos pais estarem a fazer figurinhas tristes a falar de sementinhas e amor e cegonhas? Era só o que faltava.

Felizmente, existem no mundo os alemães. Quando há um problema qualquer, os alemães resolvem. E fizeram-no de forma magistral com este livro infantil, que me chegou por mail, cortesia do meu primo João Valdiviesso (Joãozito para uns amigos, 69 para outras).

À boa e velha maneira alemã, os bebés aparecem assim:



Autocitaçãozinha sobre a guerra dos sexos

Não obstante a grande herança genética pleistocénica, devida à eficiente divisão de tarefas entre machos e fêmeas dos hominídeos, que ditou ténues diferenças nos traços comportamentais que ainda hoje se verificam, na actualidade o Homo sapiens urbano está a entrar em novos paradigmas relacionais que tendem a esbater essas mesmas diferenças por via da adaptabilidade a novos ambientes, radicalmente diferentes daqueles que assistiram à nossa evolução. Essa perversão dos comportamentos evolutivamente estáveis é capaz de gerar tensões que não serão de todo promotoras de uma saudável socialização e, por conseguinte, deveria ser evitada. Mas existe, e temos que lidar com ela, aumentando a tolerância relativamente a novas formas de homens e mulheres estarem na vida! Que fique tudo em paz!

terça-feira, 16 de junho de 2009

Papel de Parede

"O teu belogue tem um fundo a imitar papel de parede, que é bem panisguinhas." Ah pois, mas opções estéticas destas não são tomadas de ânimo leve. O papel de parede às florzinhas está de novo na moda. Por exemplo, o Rosa Escura, na Rua da Picaria, tem papel de parede com rosas escuras. Venham-me dizer que isso é panisgas!? O Era Uma Vez no Porto tem papel de parede com uns padrões azuis, que até aparecem nas cartas de chá. Panisgas? Pago um fino no Era à primeira pessoa que me der outro exemplo de bar no Porto com papel de parede.

Anúncios conspícuos

Os anúncios do google seguem aquela lógica da temática do belogue. Falo eu no primeiro poste em peixes, postas de pescada e afins, e toca do google anunciar peixes, peixarias, pisciculturas... Que originalidade...

Oremos, parte II

Antes de partir para a explicação do verdadeiro significado da existência, que deverá aparecer lá para a parte XXI ou XXII deste poste, prometi aos meus infelizes leitores que iria solucionar o paradoxo do ovo e da galinha. Não é segredo nenhum que todo o saber popular é refutável e toda a erudição clássica foi produzida por um monte de pederastas em toga. Esta coisa do ovo e da galinha, reproduzida ao expoente da idiotice por qualquer estafermo que deseja explorar as questões do anacronismo de fenómenos, deve ter sido inventada por um destes acariciadores de meninos atenienses. Só essa gente, que precisava de desculpas para beber vinho, seria capaz de tamanha ignorância e desonestidade intelectual. Principalmente os pós-socráticos e a sua moralidadezinha de conveniência.

Prometi, mas não me apetece cumprir promessas. Ou achavam que um indivíduo capaz de descarregar tanta bile sobre os paizinhos do nosso modelo civilizacional é digno de confiança? Aos meus dignos e pacientes leitores, desejo do fundo do meu fígado uma noite produtiva na criação da ilusão de serem felizes e terem montes de amigos.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Edital inconspícuo

Este arrisca-se a ser o belogue das palavras repetidas. A qualidade intrínseca do Português está aqui toda, mas a extrínseca, que é da minha responsabilidade, anda a fugir um pouco e isso, hoje, deixa-me preocupado. Ontem não, visto que depois de dormir 4 horas em 3 dias, não se pode esperar muito da integridade das sinapses.

Sem querer arranjar mais desculpas, este não é o belogue das palavras repetidas, mas antes o belogue do texto rápido, que sai como sair. Quem gostar gosta, quem se armar em corrector ortográfico leva uma galheta.

Mais informo: daqui a 5 anos vou estar na FNAC a dar autógrafos, espero ver-vos por lá.

domingo, 14 de junho de 2009

Oremos

As conversas sobre fé andam às voltas como beatas em joelhos. E raramente chegam a termo certo. Ainda bem, visto que o termo é o fim, e o fim não bate certo com a pretendida filosofia deste belogue, onde tudo se pretende que ande às voltas sem chegar a lado nenhum. A piada está no caminho e o caminho faz-se caminhando, assim como o texto faz-se escrevendo.
Mas enfiando a linha da conversa na agulha da fé (aqui o buraco da agulha também pode cruzar a parábola do camelo), começo por dizer que não acredito em transcendências. Nada que existe, existiu ou existirá tem, teve ou terá autoridade sobre a energia e a matéria ou qualquer outra entidade.

O que há, na realidade, é um (in)feliz acaso do "destino", um acidente de caminho, um erro aleatório qualquer que fez com que viéssemos todos aqui parar ao fim de todo um processo evolutivo. Por isso, se há coisa em que acredito (e se tiver que apostar a ficha da minha fé na roleta da racionalidade, vou por aí), é nos paradigmas científicos. Ou seja, acredito em algo que não tem valor estável, mas antes é plástico, mutável, frágil, arrebatado pelo conhecimento. Acredito na Biologia, e a Biologia treme a cada coisinha nova que se descobre sobre os vírus, os priões, as arqueobactérias...

Por outro lado, acreditar na Biologia, fazer dela uma "religião", enchê-la de pretensos "dogmas" é algo que se tem revelado muito útil na explicação de "tudo" o que existe de existencialidade no humano.

As grandes questões que o triste bípede tem feito desde que anda a palmilhar a terra, virando-se para cima à espera que o trovão traga a resposta, podem ser respondidas pela Biologia. Até mesmo as pequenas questões de retórica. Quando, para exemplificar algo que não pode ser definido por uma sequência temporal, alguém pergunta "o que apareceu primeiro, o ovo ou a galinha?". Pois arranjai outra expressão, pois para essa tenho a resposta. Sim, aquela que toda a gente gostava de saber. Eu sei! Sem falsas modéstias, sei!

Quereis saber, prezados leitores, estas e outras respostas aos problemas existenciais da humanidade? Consultai a Parte II deste post, quando me der na real gana de escrever mais. E só escrevo se comentardes no blog.

O opérculo senesceu

Está escancarado este miserável espaço pseudofilosófico. Arrotar-se-ão postas de pescada chilena e demais peixes semidigeridos, na busca incessante de inventar novas (ir)racionalidades. A liberdade de expressão é o mote da verborreia que aqui se há-de celebrar. Que se fale de tudo, de nada, bem ou mal ou mais ou menos, mas com uma retórica poluta e vocábulos à justiça da imaginação de cada um!