quarta-feira, 13 de março de 2013

Fumo branco?

E pronto, já há um novo Papa. Ao tempo que escrevo este texto, estamos a minutos de saber quem é o homem. Pena que de antemão já se saiba que é "homem" e não uma mulher. Só por aqui se vê o quanto a instituição ICAR ainda está tão atrás do nosso tempo secular. Numa altura em que a igualdade de direitos entre os géneros é um dado mais que adquirido, nem que seja apenas no papel e no ideal, a ICAR ainda vive no paradigma social de há 2000 anos atrás.

Ouve-se muita esperança. Que este novo líder tenha a capacidade de mudar muita coisa. Eu não podia estar menos optimista. Vai ser mais do mesmo, pois quem quer que seja, reflecte nada mais que uma "teologia" dogmática presente em todos os últimos. Nunca houve uma abertura que fosse capaz de mobilizar toda a comunidade dependente em termos espirituais das emanações de Roma, no sentido de criar condições para mudar coisas tão importantes e reais como a epidemia da SIDA, a homofobia, o sexismo, os direitos das mulheres, as organizações familiares alternativas...

A ICAR fecha os olhos a tudo isto. Todo o sofrimento humano que daqui advém não diz nada à ICAR. Triste! Agora vamos ver quem é o tipo...

quarta-feira, 6 de março de 2013

O Desenvolvimento - parte II


Se, por um lado, existe uma grande população sem massa crítica suficiente para fazer a diferença, que vive desinformada e, modo geral, desinteressada da actualidade, não aprofundando temas nem compreendendo a sua essência, do outro lado, temos elites socioculturais bem educadas, bem informadas, capazes de traduzir a informação em conhecimento e, por isso, de diagnosticar a situação. Capazes até de encontrar soluções lógicas, realistas, possíveis e aplicáveis para o estado das coisas, mas que pouco fazem. Na maior parte dos casos, não encontram expressão válida para as suas ideias no sistema político vigente. Têm a perfeita consciência da quase impossibilidade de romper através do partidarismo e da tecnocracia do domínio financeiro. Alguns sujeitam-se – pois se não os consegues vencer… - e chamam-lhes “independentes”. A ironia dessa independência…

Muitas destas elites não estão sequer para se aborrecer. Têm o seu emprego, a sua vida. A cultura, para eles, não será tanto um modo de expressão social mas mais um refúgio mental, uma forma de hedonismo.

Sem generalizar, temos uma definição de diferenciações populacionais que se encontra bem patente no efeito de homogeneização dos manifestantes. Em todas as manifestações que tive a oportunidade de ir, não vi os habitantes dos bairros sociais, os beneficiários do RSI, os operários e agricultores, os pobres reformados… em suma, os que mais prejuízo absoluto têm com as políticas da austeridade. Também – salvo aquele abjecto grupo de aposentados ricos que devia ter tido vergonha  – não vi, logicamente, as classes abastadas. O que vi foi muita classe média e média-baixa, gente informada e ideologicamente de esquerda moderada a radical, muitos funcionários públicos e muitos jovens desempregados. Para mim, isto demonstra que a informação, que chega a todos, ou não chega nas melhores condições ou, mais provavelmente, não é interpretada da mesma forma. Ou então, que os limites de tolerância são diferentes entre as classes. Os desfavorecidos estão habituados a aguentar, aguentar. Creio que, no dia em que as classes em privação socioeconómica deixarem de aguentar, aguentar e saírem à rua, não vai haver governo que aguente.

Voltando ao tema central, o que é que nos afasta, então, do desenvolvimento? Na minha opinião, um conjunto de coisas essenciais, entre as quais destaco a educação e o sistema político e a lógica de interdependência entre eles no âmbito democrático.

Em Portugal, a educação sempre foi uma enorme confusão. Com a devida relativização histórica, creio que El-Rei D. Diniz terá feito mais pela educação que 38 anos de Democracia. Houve uma transição muito trapalhona entre o paradigma da “instrução” do Estado Novo, que era uma tremenda aberração de conceito, em que criancinhas nas serranias transmontanas tinham que decorar as linhas dos caminhos-de-ferro em Angola sem nunca terem visto um comboio, e a “escola para todos” do pós-25 de Abril, em que, de repente, um sistema educativo arcaico, subdimensionado e com falta de recursos materiais e, principalmente, humanos, teve que acolher toda a população em idade escolar e apresentar resultados. Para ser justo, estes resultados foram quase milagrosos, pois passámos de um país com uma enorme taxa de analfabetismo para outro completamente diferente num curtíssimo espaço de tempo. Mas isto é apenas quantitativo. Em termos qualitativos, o nosso sistema educativo é uma manta de retalhos feita de reformas atabalhoadas, sem tempo para validar, praticar e avaliar as emanações teóricas de didactas e pedagogos de gabinete, que criam que professores inventados a partir de engenheiros e arquitectos iriam estar preparados para colocar em acção as suas ideias peregrinas. Depois, no ensino público, os recursos humanos tronaram-se um protectorado sindical demasiado poderoso para que houvesse uma real capacidade de mudança. Vejamos a polémica avaliação de professores, que é, em conceito, uma necessidade vital para garantir a qualidade do ensino, mas que se tornou num braço de ferro entre gente demasiado teimosa para fazer qualquer tipo de cedência de parte a parte. A então ministra da educação queria o 80, os sindicatos queriam o 8, e não houve vontade de encontrar um meio- termo. A ministra não entendeu que aquele modelo de avaliação iria acabar com um dos poucos factores de união que existem entre a classe docente, que é a inexistência de relações hierárquicas. Os sindicatos não perceberam que a avaliação poderia ser um factor de qualidade de ensino e de promoção de educação.

Mais uma vez, sem generalizar, eu que já la estive, conheci professores excelentes, capazes de fazer aquilo que é o essencial – criar espírito crítico, relacionando o contexto curricular com o quotidiano e potenciando, assim, a educação para a democracia e para a vida em sociedade. Também conheci verdadeiros colectores de salário, que treparam sem mérito numa carreira criada por eles e para eles, e que nada educavam. Estes são os protegidos dos sindicatos. Não os contratados nem os desempregados. Aliás, o que são os sindicalistas da educação senão professores que não sabem ensinar nem educar?

Não iria ficar em paz comigo mesmo se não dedicasse um parágrafo às Novas Oportunidades, que na intenção e filosofia eram uma iniciativa louvável e no design um programa muito bem concebido, mas que na aplicabilidade deixou muito a desejar. Não houve – principalmente nas escolas públicas – uma formação e consciencialização adequadas dos formadores e professores. Talvez fruto disso, a opinião pública colou-lhe rótulos facilitistas, muito bem aproveitados pela oposição de então, que hoje é governo e legitima valores facilitistas aos seus próprios membros. As NO não resultaram por causa da incompetência e impreparação de quem ficou incumbido de as aplicar, e não porque fosse um mau programa.

De tudo isto, resulta que, em Portugal, nunca se educou para a Democracia mas apenas para objectivos intermédios completamente descontextualizados da realidade.

Quanto ao sistema político, as complicações são imensas. Este sistema não tem praticamente nenhuma representatividade democrática, portanto não tem legitimidade. É um sistema hipócrita, anacrónico e pernicioso, que manipula o pouco eleitorado que tem, servindo-se – lá está – da sua falta de educação para a Democracia.

Hipócrita porque os eleitos e nomeados para cargos políticos não têm, na sua maioria, consciência de qualquer linha ideológica que eventualmente sirva de base ou fachada para o partido a que pertencem. Qualquer indivíduo elegível devia ser sujeito a intensiva formação em história e filosofia políticas. E, assim sendo, mesmo depois de conhecedor, se continuasse filiado num dado partido, certamente deixaria de ser hipócrita ou, na melhor das hipóteses, ignorante, passando a mentiroso descarado. Não há muitas coisas piores do que agitar uma bandeira na qual não se acredita.

Senão, vejamos: existe algo de social-democrata na história ou na actualidade do PPD/PSD? Saberão eles o que é a social-democracia? Praticam-na? Pelo que os governos  compostos por este partido têm demonstrado, a resposta é “não”! Existe, sim, nas suas políticas, um claro domínio tecnocrata e financeiro, e de social-democracia pouco ou nada.

E de socialista no PS? Nem vale a pena discutir. Nunca houve, não há, nem haverá nada de verdadeiramente socialista no Partido Socialista.

Algum deputado do PP saberá, eventualmente, que “popular” vem de “povo”, e que o conceito de “povo” é tão difuso e ambíguo que nem sequer cabe nas sociedades actuais? E, sendo ao mesmo tempo, CDS, ou seja, democratas-cristãos, professam verdadeiramente os valores do cristianismo ou apenas de catolicismo bafiento de sacristia? Mesmo que se digam “centristas”, não estão eles numa direita conservadora, do mais essencial que existe em termos de direita? Não há partido com mais problemas de identidade aparente que o CDS/PP.

Mas ainda não acabei! Será que os deputados do PCP acreditam mesmo que o marxismo-leninismo ainda pode fazer sentido na sociedade actual, ou que ainda existe proletariado? E terão consciência que perderam os seus melhores ideólogos por nunca terem aceitado uma renovação?

E o Bloco de Esquerda, em que esquerda está? Que facções internas dominam? Existe ainda um conjunto de partidos de extrema-esquerda que puxam cada um para seu lado, ou realmente, o PSR impôs a sua corrente trotskista? E se assim for, saberão todos os bloquistas quem foi Trotsky?

É um sistema político anacrónico, pois todas estas linhas ideológicas de fachada remontam ao final do séc. XIX e princípio do séc. XX. É preciso dizer mais alguma coisa? 

sexta-feira, 1 de março de 2013

Santíssimos Homens

O tipo renuncia mas não sem deixar alguma polémica na discussão sobre a pedofilia e homossexualidade na Igreja Católica. Preocupa-me mais que se juntem estas duas designações num único saco, do que propriamente o que se passa na igreja, que isso é lá com eles, desde que não prejudiquem ninguém... o que, infelizmente, nem sempre tem sido o caso.

Muita gente de bem, ou não, também tem relacionado levianamente o celibato com a homossexualidade, com a pedofilia, com as duas ao mesmo tempo, com todos os males da igreja e mais alguns. Aqui é preciso ir com muito cuidado...

Há muito tempo que defendo que, para separar as águas e ficar tudo claro, se devia estudar este problema a fundo, mas de forma fundamentada em evidência. Se a igreja permitisse, um conjunto de grupos de investigação em continentes diferentes fazia um pequeno estudo transversal sobre orientações sexuais e perversões sexuais de sacerdotes, com dados qualitativos e, principalmente, quantitativos, e com total confidencialidade (como aliás as suas ovelhas lhes exigem no momento da confissão), e tentava saber-se se a orientação sexual ou as perversões eram diferentes da população não celibatária. Se as diferenças fossem significativas (estatisticamente, claro), então, que se encontrassem as razões.

Sem isto, acho que nem vale a pena discutir o assunto... ou vale, mas apenas teoricamente, e com alguma elevação e cautelas.

Para já, é preciso afastar completamente e definitivamente as duas questões. Homossexualidade é uma variação normal do comportamento sexual, tão normal quanto a heterossexualidade ou outra qualquer cujos sujeitos não sejam postos em risco. Pedofilia é uma perversão sexual que pode levar a dano, em muitos casos gravíssimo, do sujeito e/ou do objecto. 

Por outro lado, há que distinguir o pedófilo do abusador sexual de crianças. Isto é muito importante, pois uma pessoa pode ser pedófila sem nunca ter praticado abusos, apesar de existir um determinado risco para o fazer. Um abusador é um criminoso que deve pagar a sua dívida para com a sociedade, seja sacerdote ou não.

Depois de tirarmos as coisas do mesmo saco, espero que nos entendamos melhor!

A mim não me preocupa a homossexualidade na igreja. Nem quero, sequer, discutir se há uma razão ou não para que a homossexualidade seja eventualmente maior entre sacerdotes do que entre os não sacerdotes. Isso não faz sentido nenhum. A homossexualidade, como orientação sexual, deverá ter uma distribuição muito semelhante nos dois grupos. Até prova em contrário, fico com esta ideia de fundo. Seria uma bela bofetada de luva branca para muita gente dentro e fora da igreja se isto se verificasse.

Quanto à pedofilia, as coisas já poderão ser diferentes. A génese de uma perversão sexual é necessáriamente diversa da de uma orientação sexual. Nesta, aceita-se que uma pessoa "nasça" predisposta, que seja tão natural quanto uma pessoa ser tímida ou extrovertida, ou  heterossexual... Apenas menos frequente na população. 

Uma perversão sexual, por definição, é um desvio na orientação sexual provocado por desordem de personalidade. Tem, portanto, uma causa e um efeito. Apesar das causas da pedofilia não estarem bem estabelecidas, o que se sabe até agora é que poderá haver alterações neurológicas nos pedófilos com correspondentes consequências psiquiátricas. Alguns estudos indicam hipóteses genéticas como possíveis, o que torna provável a diferenciação comportamental do pedófilo dependente do ambiente. Ou seja, não podemos rejeitar que o ambiente tenha um efeito no comportamento do pedófilo, nomeadamente na passagem da pulsão sexual ao acto em si. 

Hipoteticamente, como "a ocasião faz o ladrão", os seminários, colégios internos e demais locais onde abundem crianças e sacerdotes, serão terrenos propícios à afirmação do comportamento. 

Portanto, e mais uma vez, hipoteticamente, se a proporção de pedófilos abusadores de crianças for maior nos sacerdotes do que na população em geral, poderá ser devido à oportunidade de abusar e não a uma estranha orientação vocacional para o celibato.

O casamento de sacerdotes não resolveria, assim, o problema do abuso sexual de crianças. Quando muito, diminuiria a probabilidade de os abusos acontecerem.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O Desenvolvimento - parte I


Entre muitos erros cometidos por sucessivos governos ao longo de muitos anos de Democracia, creio que o mais grave (e, muitas vezes, o mais subvalorizado), é a forma como o “desenvolvimento” tem sido entendido. Trata-se de um problema de base, paradigmático até, ao nível de todos e de cada um dos valores pelos quais se deve reger uma sociedade.

Fazendo uma reflexão histórica, penso que nunca chegámos a sedimentar uma verdadeira ideia de “desenvolvimento”, um plano contínuo, holístico e adaptativo de como queríamos que a sociedade se comportasse a longo prazo. Em poucos anos, o “desenvolvimento” assente em bases meramente ideológicas e, já à altura, completamente anacrónicas do pós-25 de Abril, do PREC, do “socialismo” constitucionalista, deu lugar a um “desenvolvimento” apenas assente no capital, no valor figurativo do dinheiro e na abstracção dos “mercados” como solução para todos os problemas. Ou seja, nunca houve verdadeiro desenvolvimento, mas apenas reformas sucessivas para resolver problemas detectados muito tardiamente. Reformas essas que, nos dias que correm, atingiram estatuto de “refundações”, perdendo de vez qualquer vestígio de fio condutor que eventualmente as unisse ou legitimasse. Refundar significa fundar de novo, ou seja, cortar com o estabelecido e iniciar um caminho próprio, sem o peso – e a lição! – do passado e sem um verdadeiro movimento legitimado pela vontade  e necessidade das comunidades.

Ora, isto até podia ser positivo, se houvesse nessa refundação um plano de desenvolvimento que fosse fundamentado e não fosse feito à custa dos mesmos de sempre: os desfavorecidos. Estes já não são apenas o “povo” do velho paradigma social, já não são o “proletariado” do leninismo nem os “pobrezinhos” do fascismo. São também, e principalmente, os que querem trabalhar e não podem, os que querem investir e não conseguem, os que estudaram e não são necessários, os que se têm que agarrar à dignidade porque já foram perdendo todo o resto.

Que ninguém se iluda: não nos vamos conseguir desenvolver enquanto os nossos governantes não souberem o que é “desenvolvimento” e – mais importante! – enquanto os eleitores não entenderem e não levarem à prática esse conceito, exigindo-o fundamentadamente.

Não que o conceito em si seja complexo de entender por parte daqueles que têm constituído poder executivo, legislativo ou judicial, embora creia que, em muitos casos, os profissionais da política que nos têm parasitado, em virtude da sua muito exígua experiência do mundo real, não estejam equipados com os óculos conceptuais que lhes permitam entender o desenvolvimento no seu sentido lato.

É razoável admitir também que muitos políticos, tendo uma formação académica muito pouco diversificada e generalizada transversalmente à classe – Direito ou Economia, Economia ou Direito (… e um ou outro Engenheiro…) - como se apenas estas duas áreas do saber fossem passaporte para a tal carreira política. E se há uns que conseguem ter abrangência , interesse e sentido crítico suficientes para não descurarem o que não cabe nas suas áreas académicas respectivas, outros há – e creio serem a maioria (no sentido estatístico e no democrático) – que foram doutrinados pelas visões algo dogmáticas que o mundo académico tinha (e em alguns casos ainda tem), sobre os paradigmas de Economia e Direito. Como tal, é muito fácil encontrar gente para a qual a Dura lex sed lex romana é o melhor modelo judicial dum estado de direito, ou que o capitalismo keynesiano há-de resolver todos os males do mundo.

Em muitos casos, nessas academias, há um perpetuar de velhas ideias por parte de docentes avulso (docentes e não investigadores, leia-se!), que saltam constantemente entre as cátedras e as cadeiras dos poderes, indo e vindo do mundo político, financeiro e até sindical, órgãos decisores onde aplicam os mesmos dogmas que apenas ensinam (não investigam nem validam!), e onde obtêm resultados autossatisfatórios (não avaliam!). Isto não é académico, é pastoral!

Mesmo sem falar das academias, que – coitadas – têm as costas mais largas que o peito, há noutras barricadas outros exemplos acabados de dogmatismo, desde estalinistas enrustidos a trotskistas confusos, passando por socialistas apenas e só de nome e punho erguido e acabando em velhos (e novos!) do Restelo, saudosistas até à medula. O grande problema, mais uma vez, é o da reivindicação ideológica da realidade a partir de modelos socioeconómicos que são apenas teóricos – como o marxismo-leninismo – ou completamente descontextualizados – o estado de bem-estar social nórdico e a tentativa da sua colagem através de uma ou outra medida avulsa que não considera as diferenças (e que diferenças!) entre as realidades portuguesa e escandinava.

Em todos os casos, tratam-se de ideologias anacrónicas, como completamente anacrónico é, de resto, o capitalismo, principalmente nesta forma neo-liberal desregulada, em que um Estado ligado às máquinas deixa correr o marfim nos “mercados” para se agarrar à esperança da resolução das dívidas.

Não é de estranhar, portanto, que existam cúmulos de hipocrisia e cinismo por parte de políticos, como por exemplo o típico do economista comparando as contas do Estado às de uma família ou pequeno negócio, desconhecendo que o meu merceeiro, para competir com as grandes superfícies, vende as suas maçãs a menos um cêntimo que estas e, com o IVA e o IRC como estão, para poder sustentar a sua família, ter filhos a estudar, pagar a renda, água, luz, telefone, gás, gasóleo para trabalhar, despesas da pequena loja, não lhe sobra quase nada para aderir às novas regras de facturação. Ou o dono do café ali ao lado, que trabalha 16 horas por dia, pois com o IVA a 23%, não se pode dar ao “luxo” de contratar ajuda. Ambos percebem muito mais de economia que aqueles políticos e banqueiros. Ambos aguentam, aguentam… já o dono da pequena churrasqueira das redondezas não aguentou. Suicidou-se um dia destes.

O mundo real, que necessita de desenvolvimento, não se coaduna com a perspectiva estreita daqueles que não sabem o que é a política nem a democracia e que, no entanto, nos têm governado nas últimas décadas. Daqueles que aprenderam tudo o que julgam que precisam saber nas juventudes partidárias e nas tais academias que não investigam, não produzem, não validam nem avaliam. Daqueles produtos acabados do carreirismo que mancham o nome da política e infectam a democracia.

E eis-nos chegados a uma situação em que (aquele que deveria ser) o eleitor (mas não é porque no dia das eleições não vota), repete até à exaustão os soundbytes que apanha no ar, nas conversas de café, na comunicação social. “Que a política e os políticos isto e aquilo!” Como se política e políticos fossem a mesma coisa…

Ali ao lado, outro eleitor de facto não votou neste governo. Ninguém votou neste governo. A avaliar pelas pessoas que não votaram neste governo, até parece fraude eleitoral.

Outro eleitor ainda tem a digníssima coragem de assumir o voto neste tal governo, mas uma coragem ainda maior de se afirmar envergonhado. Porventura, dedicou o tempo que tinha para ler os programas eleitorais a ver a “Casa dos Segredos”. Mesmo que tivesse lido os programas, iria dar quase ao mesmo. A troika serve de desculpa para tudo, inclusivamente para um incumprimento de promessas eleitorais sem paralelo.

“Pois, mas é que os outros, os comunas e os janados, só sabem dizer mal, nunca fazem nenhuma proposta…”. E assim é, de facto. O programa do Goucha acaba, e está o eleitor distraído quando os noticiários abrem. Se não houver uma boa discussãozinha parlamentar, com um belo “tanso é a tua tia, pá”, um ministro a fazer corninhos, uma deputada a gritar qualquer coisa lá atrás, os coleguinhas a dizer “muito beeem, muito beeeem” nos momentos mais polémicos… se não houver picante, o tipo muda de canal. Que paga um dinheirão para ter 137 canais cheios de interesse!

Nisto a comunicação social não está isenta de culpas. Por mais que um órgão informativo se diga independente, nunca o é de facto. No limite, tem que pagar as despesas da sua actividade e os salários (ou avenças) aos “colaboradores” e administradores. Na generalidade está intimamente ligado a um qualquer grupo económico e tem que ter uma certa permeabilidade aos seus interesses. Na essência, tem que vender. Vender jornais, revistas, publicidade. Vender shares, minutos, numa guerra concorrencial que nunca mais acaba, onde um público pouco exigente não se satisfaz com notícias relevantes no contexto sociopolítico. Estas não vendem. As notícias “boas” é que vendem: o futebol, o crime, a polémica, o circo da actualidade plasmado em todas as vias possíveis e imaginárias, servido de preferência com sensacionalismo para colar mentes incautas ao ecrã. Vendem, vendem, vendem. Pouco informam, pouco cultivam.